Morenistas argentinos desprezam golpe de Trump

Por Andrea Lobo
12 Janeiro 2021

Em 12 de novembro, enquanto Trump convocava gangues fascistas a ajudá-lo a reverter sua derrota nas eleições presidenciais, como ele ameaçou fazer durante toda sua campanha, o site morenista La Izquierda Diario escreveu que "tudo indica que a verdadeira estratégia de Trump não é entrincheirar-se na Casa Branca". Trump estaria, na verdade, buscando "manter a adrenalina" e evitar o "tribalismo" no Partido Republicano.

Essa declaração, também publicada por seu site em inglês, o Left Voice, significou uma "minimização criminosa da grave crise dentro dos EUA, projetada exclusivamente para evitar uma erupção da reação da classe trabalhadora à tentativa de golpe de Trump", o World Socialist Web Site alertou.

Apoiadores leais ao presidente Donald Trump chocam-se com autoridades antes de conseguirem invadir o edifício do Capitólio durante sublevação, quarta-feira, 6 de janeiro, 2021. (AP Photo/ John Minchillo)

Em 6 de janeiro, Trump incitou um bando fascista que portava armas de fogo, bombas caseiras e algemas do tipo “enforca gato”a invadir o Capitólio com a colaboração de setores da polícia e do Pentágono no momento em que o Congresso americano se reunia para a certificação dos resultados eleitorais. Nos dias seguintes, Trump e um setor significativo do Partido Republicano prosseguiram com sua conspiração neofascista, enquanto a imprensa corporativa e o Partido Democrata seguem tentando escamotear os perigos.

A classe dominante americana, que enfrenta sua pior crise econômica desde os anos 1930, demonstrou estar determinada a utilizar qualquer meio — inclusive a ditadura e o fascismo — para destruir as restrições a seus planos de impor uma política de “imunidade de rebanho” em meio à pandemia e escalar a exploração, a pilhagem neocolonial e a guerra imperialista.

Em resposta, os morenistas juntaram-se ao Partido Democrata em seus esforços de desarmar politicamente a classe trabalhadora e semear a complacência. Em um longo artigo de 7 de janeiro, eles escreveram: "O ataque ao Capitólio não foi nem uma insurreição nem um golpe, como insinua a imprensa burguesa". Em vez disso, eles dizem: "mostra uma extrema-direita que, longe de aceitar a derrota após [as eleições] de 3 de novembro, encorajou-se durante a transição".

Ao invés de explicar o que "encorajou" a extrema-direita — o que exporia a falência de toda a perspectiva política dos morenistas — o artigo prossegue tranquilizando os leitores de que mesmo esta ameaça já passou. "Agora, o establishment — dos republicanos e democratas até os militares — está unido contra Trump e a extrema-direita", procurando "colocar um fim ao populismo caótico de Trump", explica Izquierda Diario.

Como evidência dessa frente única dos políticos capitalistas contra a ameaça da extrema-direita, os morenistas citam declarações dos senadores republicanos Lindsey Graham e Marsha Blackburn reconhecendo a eleição de Biden após o golpe de 6 de janeiro. Ao fazer isso, o Izquierda Diario está auxiliando o Partido Democrata em seus esforços de dar cobertura aos conspiradores golpistas, legitimando as alegações de Trump de fraude eleitoral em nome da "unidade" bipartidária.

Em resposta ao golpe, os morenistas não estão apenas anestesiando e desarmando politicamente os trabalhadores americanos, que enfrentam uma persistente ameaça de ditadura fascista, mas estão preparando o terreno para promover essa mesma política em outros países. Isso é uma continuação dos seus esforços históricos de subordinar os trabalhadores a facções supostamente "progressistas" da classe capitalista nacional durante episódios históricos cruciais da luta de classes.

Essa tendência política foi fundada por Nahuel Moreno, que rompeu com o Comitê Internacional da Quarta Internacional em 1963, rejeitando sua luta pela unidade internacional e independência política da classe trabalhadora com base em um programa socialista revolucionário, a fim de se adaptar ao castrismo, ao stalinismo e ao nacionalismo burguês, em particular, ao movimento peronista na Argentina.

Seu partido subordinou as lutas revolucionárias na Argentina entre 1968 e 1975 ao partido nacionalista burguês peronista e seus governos e à burocracia sindical, ajudando a desarmar politicamente a classe operária argentina logo antes do golpe de 1976 e da instalação de uma junta militar fascista que matou pelo menos 30.000 trabalhadores e jovens.

Enquanto o Partido Socialista de los Trabajadores (PTS) na Argentina, que dirige a publicação do Izquierda Diario, afirma ter se distanciado de Moreno, sua política segue reafirmando a mesma perspectiva nacionalista e oportunista.

Nos EUA, o grupo Left Voice dedica-se a colocar demandas ao Democratic Socialists of America (DSA), uma facção do Partido Democrata. Os editores da revista Jacobin, intimamente ligada ao DSA, também zombaram dos que chamaram o assalto ao Capitólio de "golpe" e reafirmaram a "estabilidade das instituições republicanas americanas".

Com receio de que o golpe esteja expondo o caráter criminoso de sua perspectiva política, os morenistas sugerem que sua orientação ao DSA mantém-se viável pois as "divisões internas" entre a "ala do establishment" e a "ala progressista" do Partido Democrata "foram apenas remendadas".

Em outro artigo publicado no mesmo dia, o Left Voice, referindo-se aos sindicatos e organizações ligadas ao Partido Democrata, declara: "Ao canalizar a energia do movimento Black Lives Matter [contra a violência policial] em apoio a Biden, esses líderes, intencionalmente ou não, trabalharam para minar o que poderia ter servido como base ao tipo de movimento social de massas que precisamos nos proteger contra a extrema-direita".

Os próprios morenistas, entretanto, deram argumentos para votar em Biden e reproduziram a política identitária obcecada por raça que é empregada pelo Partido Democrata para dividir os trabalhadores e ocultar o caráter de classe do partido e a dominância das divisões de classe sob o capitalismo.

No mesmo artigo, o Left Voice escreve que, no contexto das medidas de austeridade implementadas por ambos os partidos, "o extremismo de direita emergiu porque tinha um apelo ao desespero (tipicamente) dos homens brancos. Explorando o racismo sobre o qual o capitalismo é construído".

Após a eleição presidencial na Bolívia, em outubro, do Movimiento al Socialismo (MAS), que no ano anterior havia rechaçado a resistência de massas à derrubada militar do seu governo por fascistas, o Izquierda Diario escreveu: "Esta derrota da direita continental poderia se ampliar se como tudo indica, Trump perder as eleições em 3 de novembro".

Em 2 de novembro, falando aos indecisos antes das eleições, o Left Voice argumentou que "a coalizão eleitoral dos Democratas é muito tênue, pois inclui todos, desde organizadores declaradamente socialistas até setores do grande capital". Uma maioria democrata no Senado, acrescenta, poderia "dar mais poder aos senadores que representam a ala progressista, pois seu número comparativamente menor terá mais peso". Assim, afirma, "o que definirá esta luta é o tamanho da pressão vinda da base para impulsionar uma agenda progressista”.

Confrontados por "grandes expectativas de reformas", continua, "Biden e os democratas poderiam muito bem tentar resolver isso fazendo algumas concessões iniciais à classe trabalhadora", embora "não o suficiente para responder à crise crescente". Em meio à fome generalizada, ao desemprego e ameaças de despejo, a promessa, no dia anterior das eleições, de "concessões antecipadas" se apresenta como um tácito apoio aos democratas e a Biden.

Além disso, ao combinar essa posição com a afirmação de que "Biden resolverá uma das maiores crises capitalistas da história moderna em favor [dos capitalistas]" confessam explicitamente sua visão do capitalismo como sendo indestrutível e seu repúdio às perspectivas de uma revolução.

O artigo acrescenta: "Há claramente forças neofascistas e proto-fascistas nos Estados Unidos hoje, mas há pouca ou nenhuma evidência de que a classe capitalista tenha se voltado para essas forças com o propósito de destruir e substituir as instituições do governo burguês-democrático e esmagar a classe trabalhadora".

O presidente do Estado mais poderoso do mundo vem, há anos, cultivando essas forças fascistas e vinha, há meses, ameaçando invocar a lei marcial para esmagar protestos e instaurar uma ditadura presidencial.

Tal resposta ao golpe de Trump é consistente com as "Teses" do Congresso de 2020 do PTS argentino e suas discussões posteriores. Em um texto de 30 de novembro, o ideólogo e parlamentar do PTS, Christian Castillo, explica que os morenistas argentinos veem a situação política como "incipientemente pré-revolucionária", com eventos que "anunciam antecipadamente que temos grandes confrontos entre as classes pela frente".

Previsivelmente, prossegue dizendo que isto “pré-indica” a necessidade de construir um partido revolucionário, mas que por enquanto podem continuar com sua orientação oportunista ao governo peronista, ao parlamentarismo e aos sindicatos. "A possibilidade se abre para o desenvolvimento ... de condições para o surgimento de um poderoso partido dos trabalhadores, socialista e revolucionário". O PTS, acrescenta Castillo, "aposta que será um fator chave para o surgimento deste partido".

Por enquanto, de forma semelhante a como criaram confusões em torno do caráter burguês e reacionário do Partido Democrata, Castillo insiste que "a grande burguesia não considera a Frente de Todos [governo peronista] como 'seu próprio' governo ...".

Temendo que os acontecimentos no exterior possam atrapalhar essa perspectiva, ele escreveu: "Não acreditamos que as categorias de situação revolucionária e pré-revolucionária possam ser usadas em nível internacional ... [A resolução do PTS] define a especificidade da situação argentina e seus aspectos proeminentes até o momento".

Isso é um repúdio aberto ao programa da revolução socialista mundial incorporado ao marxismo e à Teoria da Revolução Permanente de Trotsky, num momento em que a pandemia global e a crise econômica demonstraram a incapacidade da classe dominante e de seus representantes políticos, especialmente no centro financeiro e do imperialismo mundial, de controlar as forças desencadeadas pela economia global.

Vladimir Lenin explicou em um ensaio de 1914 que a classe dominante emprega dois "métodos gerais de luta contra os trabalhadores". Por um lado, há "violência, perseguição, proibições e repressão", que é apoiada por toda a classe dominante durante os "momentos altamente críticos na luta dos trabalhadores contra a escravidão assalariada". Por outro lado, ao valer-se do sistema democrático, a classe dominante emprega "extrema astúcia, com armadilhas e subterfúgios destinados a disseminar a influência 'ideológica' da burguesia entre os escravos assalariados com o objetivo de desviá-los de sua luta contra a escravidão assalariada".

Como a experiência crucial do golpe de Trump demonstrou, a fim de combater a ameaça da ditadura, os trabalhadores e a juventude nos Estados Unidos, Argentina e internacionalmente devem se opor aos agentes da classe dominante que procuram desarmá-los politicamente. Isso inclui os morenistas, cuja política reflete os interesses das altas camadas da classe média que buscam maiores privilégios na academia, nos sindicatos e na política, empregando tais "armadilhas e subterfúgios" contra os trabalhadores.

O CIQI, que publica o World Socialist Web Site, é a única força política consistentemente alertando sobre os perigos representados pelo golpe republicano e os “remédios para dormir” distribuídos pelos democratas e seus satélites. A conclusão urgente a ser tirada é a necessidade de construir o CIQI em todos os países para dirigir um movimento político revolucionário de massas na classe trabalhadora em luta pelo socialismo.

 

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