A dinâmica de classe da massiva especulação financeira em Wall Street

6 Janeiro 2021

Publicado originalmente em 29 de dezembro de 2020

À medida que o fim do ano de 2020 se aproxima, a dinâmica de classe e a lógica objetiva essenciais do sistema capitalista global nunca foram tão diretamente reveladas.

Bilhões de pessoas em todo o mundo enfrentam os efeitos crescentes da pandemia COVID-19, a destruição de milhões de empregos, o empobrecimento, incluindo em alguns casos a fome, e a destruição de um futuro viável para toda uma geração de jovens. No entanto, a oligarquia financeira dominante está se beneficiando com centenas de bilhões de dólares.

Negociante na bolsa de valores de Nova York (AP Photo/Richard Drew)

O ano está acabando em meio à maior contração econômica desde a Grande Depressão dos anos 1930, mas Wall Street, mostrando o caminho das bolsas de todo o mundo, está terminando o ano atingindo um recorde.

Quando os efeitos econômicos e financeiros da pandemia começaram a se tornar aparentes em março, Wall Street e os mercados globais mergulharam. Mas a Reserva Federal dos EUA e o governo, juntamente com bancos centrais e governos do mundo inteiro, intervieram para organizar o maior resgate da oligarquia financeira na história, injetando mais de US$ 10 trilhões no sistema financeiro.

Nos Estados Unidos, o Fed emitiu na prática um cheque em branco para Wall Street, comprometendo-se a comprar todas as classes de ativos financeiros para que a extração da riqueza da sociedade nos seus níveis superiores pudesse continuar sem interrupções.

Desde a sua queda em meados de março, o índice S&P 500 aumentou em 66%. Porém, isso é apenas uma expressão parcial do que ocorreu, pois as ações de dezenas de empresas subiram a um ritmo muito mais acelerado. As ações da Tesla subiram 691% até hoje este ano; as ações da Power Plug, uma empresa de células combustíveis, aumentaram em mais de 1.000%. A Zoom Communications subiu 451%.

Campanhas de vacinação para a COVID-19 estão em andamento nos EUA e no Reino Unido, o que pode proporcionar importantes avanços na luta médica contra o vírus. Porém, a campanha nos EUA já está sendo descrita como uma "confusão".

Ao mesmo tempo, uma nova classe de bilionários está surgindo, com suas fortunas ampliadas pelo aumento das ações das empresas associadas ao desenvolvimento de vacinas e sua utilização. As ações da Moderna, uma das empresas envolvidas no desenvolvimento de uma vacina, aumentaram em 532%.

Quando os governos e bancos centrais lançaram suas operações de resgate multitrilionárias, eles declararam que as medidas extraordinárias eram necessárias para salvar a economia. Essa fraude foi exposta. A única preocupação da oligarquia dominante não era a saúde e o bem-estar econômico da população, mas aquela dos mercados financeiros.

Consequentemente, não foram tomadas medidas eficazes para lidar com a pandemia, o que teria envolvido o fechamento de empresas não-essenciais e a garantia de renda aos trabalhadores e suas famílias, em conjunto com a aplicação de medidas rigorosas de segurança em empresas essenciais que permaneceram abertas.

Ao contrário, o início da operação de resgate foi acompanhado por uma campanha homicida de retorno ao trabalho em meio à promoção explícita da política chamada "imunidade do rebanho", garantindo a propagação do vírus, de modo que a mais-valia da mão-de-obra da classe trabalhadora fosse garantida sem interrupções. Isso implicou a normalização das mortes em larga escala sob o slogan cunhado por Thomas Friedman do New York Times: "a cura não pode ser pior que a doença".

Não há limite para o fornecimento de dinheiro aos mercados financeiros. Porém, mesmo a escassa assistência aos trabalhadores e às suas famílias é objeto de debate e atrasos nos EUA. Em outros lugares, até mesmo medidas de emergência limitadas estão sendo agora retiradas.

O fornecimento de dinheiro pelo Fed e outros bancos centrais para sustentar à dívida corporativa tem proporcionado grandes ganhos para os principais bancos. Os maiores bancos ao redor do mundo arrecadaram cerca de US$125 bilhões em comissões por segurarem dívidas corporativas e por aumentarem seus patrimônios, à medida que as empresas procuram dinheiro para superar os efeitos da pandemia.

O que tem sido descrito como um "ano muito robusto para segurar dívida e patrimônio" só foi possível devido à certeza de que o Fed e outros bancos centrais estão prontos para intervir com mais assistência, caso isso se mostre necessário. Isso já foi levado em consideração, com a equipe estratégica do JPMorgan esperando a provisão de mais US$5 trilhões em 2021.

A garantia do Fed de que ele fará tudo ao seu alcance para garantir o contínuo aumento de Wall Street levou a uma orgia especulativa, através da chamada “margin debt”, na qual investidores ricos tomam dinheiro emprestado usando como garantia os seus investimentos existentes para comprar mais ações.

No mês passado, os investidores tomaram emprestado um recorde de US$722,1 bilhões usando suas carteiras de investimento, superando o recorde anterior de US$668,9 bilhões registrado em maio de 2018. A “margin debt” é considerada arriscada porque, se os preços das ações caírem, o investidor deve compensar a corretora da qual ele tomou emprestado, seja fornecendo dinheiro ou vendendo as ações subjacentes aos empréstimos, com o potencial de desencadear uma venda generalizada.

Noticiando este marco, o Wall Street Journal advertiu que ele era "sombrio" porque os registros de “margin debt” foram seguidos pelas quedas do mercado de ações de 2000 e 2008. Porém, apesar dos sinais de alerta, a especulação continua sustentada na crença de que o Fed está pronto para intervir, uma crença justificada.

Conforme o chefe global de investimentos da Guggenheim Partners, Scott Minerd, comentou recentemente ao Financial Times, a pandemia "reformulou completamente" o chamado sistema econômico de "livre mercado", substituindo-o por ciclos de "intervenção monetária cada vez mais radical" e a "socialização do risco de crédito".

Em outras palavras, o Estado capitalista surgiu à frente e no centro como o fiador e o facilitador do roubo da sociedade pela oligarquia financeira, cujos interesses ele defende.

A atual ordem social se assemelha ao Antigo Regime francês, na véspera da revolução de 1789. Diante de uma crise profundamente enraizada nas contradições inconciliáveis da economia a que presidia, a elite governante, organicamente incapaz de implementar reformas, teve que ser varrida para que a sociedade pudesse progredir.

Da mesma forma, a situação atual criou as condições objetivas para um confronto de classes em larga escala no qual a classe trabalhadora é colocada diante da tarefa de abolir a ordem capitalista reacionária e antiquada e estabelecer um sistema socialista, no qual a necessidade humana, e não o lucro e a ganância, constitui o fundamento da ordem econômica.

Porém, esse resultado, necessário para o progresso humano, depende das decisões tomadas pelos trabalhadores e jovens para enfrentar o desafio diante deles, unindo-se e construindo o partido revolucionário para liderar as lutas que agora estão prestes a explodir.

Nick Beams