Jacobin distorce entrevista com Evo Morales para encobrir guinada à direita do MAS

Por Andrea Lobo
7 Novembro 2020

Publicado originalmente em 2 de novembro de 2020

A revista Jacobin, uma publicação alinhada com os Socialistas Democráticos dos Estados Unidos (DSA) – uma fração do Partido Democrata nos EUA – alterou desonestamente as traduções em inglês das entrevistas com líderes do Movimento ao Socialismo (MAS) da Bolívia para encobrir o caráter militarista e de direita do novo governo do MAS.

Junto com outras forças pseudoesquerdistas internacionais, a Jacobin procurou apresentar a vitória do MAS na eleição presidencial de 18 de outubro como um sinal de uma maré “progressista” que torna desnecessária qualquer mobilização política independente dos trabalhadores contra a ameaça do autoritarismo – representada internacionalmente por Donald Trump – e o capitalismo.

Evo Morales (Crédito: www.kremlin.ru)

Em 7 de outubro, a Jacobin publicou uma entrevista com o líder do MAS, Evo Morales, que foi derrubado da presidência da Bolívia no ano passado em um golpe militar apoiado pelos EUA que instalou um regime fascistoide liderado por Jeanine Áñez. Enquanto a versão em inglês da entrevista trazia o título “Continuamos combatendo as multinacionais que impulsionaram o golpe”, no dia seguinte a entrevista provavelmente original em espanhol apareceu com um título muito mais moderado: “Vamos ganhar”.

A versão em inglês omite completamente os três primeiros parágrafos da entrevista, na qual Morales começa apelando aos militares e oferecendo estabilidade para o regime burguês. Ele descreve um período de “um golpe após o outro” desde os anos 70, em contraste com os 14 anos de estabilidade sob o governo do MAS, e depois se apresenta como “o único presidente civil que foi para o quartel”. Ele explica que prestou o serviço militar obrigatório e mais tarde atuou na Polícia Militar antes de fazer a segurança do Comando Geral do Exército e conhecer três presidentes, incluindo o ditador fascista General Hugo Banzer.

Os editores da versão em inglês da revista também decidiram remover uma passagem na qual Morales explica que, após sua eleição em 2005 e a nacionalização parcial do petróleo boliviano, “Dissemos: ‘se as petroleiras querem ficar na Bolívia, será como sócias, não como patrões ou como donas de nossos recursos naturais’... O investimento privado, nacional ou internacional, é garantido pela Constituição. Porque somos uma economia plural pela Constituição, mas sob as regras do Estado boliviano.”

Em meio a uma campanha em que o MAS se concentrou na “reativação econômica” e se opôs a qualquer lockdown para deter a propagação da COVID-19, Morales procurou disfarçar essa posição como anticapitalista, dizendo à Jacobin: “O aparato produtivo fica paralisado pela quarentena, mas o próprio governo também fica paralisado, ao se submeter às políticas do capitalismo”. Isso foi traduzido de maneira criativa pela Jacobin a fim de ocultar a promoção de “esquerda” de Morales da oposição às quarentenas, que está de acordo com os grandes interesses empresariais. A tradução, ao invés disso, se refere à “pandemia que... paralisa a produção através da quarentena – mas, também um governo que paralisa todas as obras públicas e as submete às políticas capitalistas”.

Após se referir às nacionalizações que realizou, Morales declarou em espanhol: “Veja como é importante ser nacionalista e anti-imperialista”. Isso foi omitido, deixando apenas a frase anterior, “imagine a importância desta mudança”. Embora usado como mera retórica por Morales, a Jacobin se opôs a considerar a opressão dos EUA na América Latina como “imperialista”.

Em 27 de outubro, os sites em inglês e da América Latina da Jacobin publicaram uma entrevista com Adriana Salvatierra, líder do MAS e presidente do Senado até o golpe de Estado de 2019. A versão em inglês é intitulada “Agora podemos continuar a revolução na Bolívia”, uma frase que não aparece na entrevista original provavelmente em espanhol.

Salvatierra usou uma pergunta sobre o recente referendo constitucional no Chile para tranquilizar as forças de direita – a única pergunta e resposta que ficou completamente de fora na versão em inglês. “Na Bolívia, eles [a direita] disseram que a Constituição política [aprovada pelo governo do MAS] aprovou o aborto... e um disse, ‘ei, em nenhum lugar da Constituição se diz isso”, disse Salvatierra, acrescentando que a Constituição também “respeita a propriedade privada”.

Vale notar que as versões em inglês e espanhol incluíram uma passagem onde Salvatierra minimiza a ameaça de grupos paramilitares fascistas dizendo: “Até mesmo [o Secretário de Estado dos EUA] Mike Pompeo reconhece a vitória do MAS”. Esse argumento expressa a posição de que, para impedir o fascismo, os interesses do imperialismo americano devem ser atendidos.

Falando a uma publicação considerada de “esquerda” do establishment político americano, Morales e Salvatierra aproveitaram a oportunidade para dar garantias ao imperialismo com apelos aos militares bolivianos e declarações de apoio aos investimentos privados e da “reativação econômica” em meio à mortal pandemia de COVID-19.

Reconhecendo as pretensões pseudoesquerdistas de seus entrevistadores, Morales procurou de alguma forma ocultar sua mensagem, mas não o suficiente aos olhos dos editores da Jacobin em inglês.

Nos últimos meses, Morales fez constantes apelos aos mesmos militares que o derrubaram e massacraram aqueles que resistiram ao golpe, chegando inclusive a sugerir ao El Perfil no final de abril que “bairros pobres deveriam organizar cozinhas populares com as Forças Armadas, a polícia e os funcionários públicos”. Expressando apoio a uma política de “imunidade de rebanho”, o presidente eleito do MAS, Luis Arce, disse claramente a repórteres que é “inevitável o contágio”.

Em relação à defesa dos interesses empresariais após a eleição, Morales saudou “a disposição da Confederação de Empresários Privados da Bolívia [CEPB], um setor chave na economia, de apoiar os esforços do Estado para reativar a produção e a criação de empregos”. A CEPB apoiou as falsas alegações de que as eleições de 2019 foram fraudadas como pretexto para derrubar Morales, e reconheceu Áñez uma vez que ela tomou o poder.

Os apelos aos militares bolivianos têm um significado especial, pois dizem ao imperialismo americano e à oligarquia boliviana que o MAS se submeterá a outro golpe se Washington e seus lacaios nas forças armadas bolivianas assim exigirem. Além disso, Morales e o MAS procurarão novamente desmobilizar qualquer resistência. Antes do golpe de 2019, Morales manteve como seu chefe militar o general Williams Kaliman, que foi treinado no Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança dos EUA – a nova Escola das Américas – e tomou a principal inciativa para o golpe de Estado, exigindo que Morales renunciasse.

Morales então renunciou, deixando seus seguidores para trás enquanto estavam sendo massacrados, detidos e torturados pelos militares e pela polícia. Mais tarde, ele reconheceu que a Casa Branca, temendo que sua morte provocasse maior agitação, ofereceu-se para ajudá-lo a escapar vivo da Bolívia. Ao invés disso, ele aceitou a oferta dos aliados de Washington no Exército mexicano.

Enquanto a repressão continuou nas semanas após o golpe, Morales, Salvatierra e outros líderes do MAS fizeram contínuos apelos para deter a resistência popular ao golpe e iniciaram conversas com o regime golpista fascistoide. Além disso, a Central Operária Boliviana (COB), um bastião político do MAS, participou do golpe exigindo também a renúncia de Morales e tendo em seguida um importante dirigente da COB integrado ao regime de Áñez.

Em agosto, a Jacobin não só reclamou dos “simpatizantes extremistas do MAS” que “consideraram isso uma traição” por parte da COB, mas insistiu que “os próximos eventos colocarão em prova o poder dos movimentos bolivianos, e sua disposição de estar lado a lado com Morales e seus aliados”. Em seguida, a revista glorificou de maneira absurda a “década de ouro” sob o governo do MAS na Bolívia, que continua sendo o país mais pobre da América do Sul, e alegou que o MAS fez da “Bolívia um país verdadeiramente independente”.

Estes argumentos, juntamente com as entrevistas em espanhol e as omissões em inglês, seguem uma lógica definida e reveladora. A Jacobin e os DSA representam camadas da classe média abastada cujas carteiras de investimentos e carreiras lucraram muito com o saque do imperialismo americano contra os trabalhadores superexplorados e os recursos naturais dos países oprimidos.

Por um lado, estas forças esperam fornecer uma plataforma que facilite os esforços do MAS para canalizar a oposição social por trás de novas ilusões na democracia burguesa, enquanto o imperialismo americano e seus parceiros na burguesia e entre os militares bolivianos preparam outra guinada em direção ao autoritarismo.

Por outro lado, a Jacobin procura manter seus leitores de língua inglesa enganados pelo MAS, inclusive manipulando entrevistas com seus líderes. Isso serve a dois propósitos fundamentais. Em primeiro lugar, condiciona seus leitores a acreditarem que combater a ameaça ao autoritarismo requer “estar lado a lado” com a oposição capitalista oficial à “extrema-direita”, ou seja, o Partido Democrata nos EUA contra Trump. Em segundo lugar, procura apresentar a oposição vinda de baixo como ilegítima, corroendo assim o apoio dos trabalhadores e da juventude dos EUA às lutas dos trabalhadores bolivianos contra seus respectivos governos capitalistas.

As respostas completas em espanhol, no entanto, também se encaixam na mesma lógica de classe. A recém lançada Jacobin América Latina é uma plataforma utilizada por essas mesmas camadas nos EUA e seus parceiros em toda a região para cultivar laços com as elites dominantes regionais. Entre outros objetivos, a publicação lhes oferece uma plataforma para apelar para a fração do imperialismo americano representada pelo Partido Democrata. O ex-vice-presidente de Morales, Álvaro García Linera, e muitos outros políticos burgueses fazem parte do conselho editorial da publicação em espanhol.

 

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