Regime golpista na Bolívia reconhece vitória eleitoral do MAS

Por Andrea Lobo
24 Outubro 2020

Publicado originalmente em 19 de outubro de 2020

O regime boliviano que chegou ao poder através do golpe militar apoiado pelos EUA contra o presidente Evo Morales em novembro passado reconheceu a vitória do Movimento ao Socialismo (MAS) de Morales nas eleições presidenciais realizadas no domingo.

Embora os resultados oficiais não tenham sido divulgados, as pesquisas de boca de urna mostraram uma vitória esmagadora no primeiro turno para Luis Arce, o candidato à presidência do MAS que foi ministro da economia de Morales. O candidato do MAS obteve 52,4% dos votos contra 31,5% para o ex-presidente de direita Carlos Mesa. O político de extrema-direita Luis Fernando Camacho, que comandou grupos paramilitares fascistas durante e após o golpe do ano passado, obteve 14% dos votos.

Evo Morales (Crédito: www.kremlin.ru)

Mesa já reconheceu a derrota, enquanto a presidente de facto Jeanine Áñez e o presidente da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, parabenizaram Arce pela vitória. A OEA desempenhou um papel crucial na derrota de Morales no ano passado ao publicar um relatório com falsas alegações de fraude eleitoral.

Apesar da pandemia do coronavírus e da forte presença militar nas urnas, a imprensa local noticiou uma grande participação dos eleitores, com milhões de pessoas usando máscaras e esperando por longas horas em filas com distanciamento social.

O resultado eleitoral demonstra o profundo ódio popular pelo regime fascistoide de Áñez, que adiou duas vezes as eleições em meio a uma resposta catastrófica à pandemia, à repressão militar e à corrupção descontrolada. Com quase 8.500 mortes confirmadas por COVID-19, a Bolívia tem a maior mortalidade per capita depois do Peru e da Bélgica.

A decisão de aceitar os resultados eleitorais, devolvendo o MAS ao poder, está sendo tomada pelo imperialismo americano e seus lacaios no regime de Áñez e pelos militares bolivianos como uma manobra tática necessária para desarmar politicamente e paralisar as crescentes lutas operárias, enquanto preparam uma guinada para formas autoritárias de governo.

Ao mesmo tempo, um governo Arce é considerado um melhor veículo para reabrir a economia, implementar uma política de “imunidade de rebanho” de contágio generalizado, aplicar medidas brutais de austeridade em resposta à desaceleração econômica e construir ainda mais o aparato repressivo do Estado.

Estavam em andamento os preparativos para anular a eleição do MAS. Menos de um ano após o golpe militar contra Morales, centenas de tropas, algumas com equipamento de choque e outras empunhando fuzis, patrulharam as ruas de La Paz, Santa Cruz e outras cidades para supervisionar as eleições. Em pelo menos um caso, o exército foi flagrado transportando ilegalmente bolsas com cédulas em Santa Cruz.

Salvador Romero, nomeado pelo regime golpista para presidir o tribunal eleitoral, foi presidente da Corte Nacional Eleitoral durante o governo do próprio Mesa. Ele se tornou informante do embaixador dos EUA, Philip Goldberg, quando esse último planejou uma guerra civil junto com as elites de Santa Cruz em 2008, e se tornou diretor residente do Instituto Nacional da Democracia (uma frente do Departamento de Estado dos EUA) em Honduras em 2011-2014 com a missão de “aumentar a confiança nas eleições” realizadas pelo regime instalado no golpe de 2009 apoiado pelos EUA.

Romero anunciou no último minuto que, supostamente devido a problemas no sistema, os resultados preliminares não seriam divulgados na noite das eleições, o que teria facilitado uma fraude.

Nada disso impediu o ex-presidente Morales, que foi arbitrariamente proibido de se candidatar ao Senado, e outros líderes do MAS de apresentar as eleições como uma “celebração da democracia”.

Em uma entrevista coletiva realizada em Buenos Aires, na Argentina, Evo Morales acrescentou: “Hoje, recuperamos a democracia e a pátria. Recuperaremos a estabilidade e o progresso! Recuperaremos a paz!”

No entanto, em La Paz, enquanto a polícia reforçava o cordão para proteger a sede da campanha do MAS, o presidente eleito Arce leu uma declaração para a imprensa dizendo: “Vamos governar para todos os bolivianos, vamos construir um governo de unidade nacional, vamos construir a unidade em nosso país”.

Essas declarações equivalem a um sinal de paz aos golpistas, que simplesmente irão esperar até que o MAS seja novamente considerado inadequado para suprimir a oposição social.

Fundamentalmente, toda a resposta do MAS ao golpe foi dirigida para impedir a mobilização independente da classe trabalhadora contra o Estado capitalista. Isso foi acompanhado por promessas à classe dominante de uma “reativação econômica” e benefícios para os mesmos militares responsáveis pelo massacre daqueles que se opuseram à derrubada de Morales.

No sábado, Morales tuitou: “Os soldados e o pessoal da Força de Tarefa Conjunta não receberam bônus nem salários nos últimos três meses, situação que denunciamos como uma flagrante violação de seus direitos e desconhecimento do trabalho que realizam”.

Depois, em uma entrevista à revista Jacobin, ele se apresentou como “o único presidente civil da Bolívia que passou por um quartel”, dizendo que prestou o serviço militar obrigatório em 1978, atuou na Polícia Militar e fez a segurança do Comando Geral do Exército. Morales então argumentou que o MAS pode dar estabilidade ao governo burguês em oposição às décadas de “um golpe após o outro” antes de sua eleição em 2005.

Ele apresentou de maneira fraudulenta como “anticapitalista” sua oposição à paralisação da produção por causa da pandemia, uma posição baseada na proteção do fluxo contínuo de lucros em detrimento da vida dos trabalhadores. “O aparato produtivo foi paralisado pela quarentena, mas também o próprio governo foi paralisado, ao se submeter às políticas do capitalismo”, disse.

O MAS e Morales estão preparando outra traição aos trabalhadores e às massas bolivianas em meio às contínuas ameaças mortais da pandemia, da ditadura militar e do fascismo. Isso só pode ser entendido como o resultado de sua política nacionalista-burguesa, completamente subordinada a Wall Street e ao imperialismo.

Evo Morales chegou ao poder pela primeira vez para acabar com a crise do governo burguês em 2000 e 2005, quando protestos em massa explodiram contra a privatização da água e pela nacionalização do gás natural.

Um aumento nos preços das commodities e a crescente demanda chinesa permitiram que Morales oferecesse grandes receitas às empresas transnacionais como “parceiras”, ao mesmo tempo em que atribuía a propriedade majoritária e mais receita para o Estado. O crescimento econômico e uma atuação equilibrada entre o capital chinês, europeu e americano enriqueceu muito as seções da elite empresarial local, a verdadeira base social do MAS.

Novos programas sociais e investimentos no serviço público ajudaram milhões a sair da pobreza, mas a maioria permaneceu perto do limite da linha oficial de pobreza. A Bolívia continua sendo o país mais pobre da América do Sul, com a ONU constatando que 63% da população vive abaixo ou perto da pobreza, a mesma porcentagem vivendo abaixo da pobreza em 2004.

Com os preços das commodities caindo em 2014, o governo Morales cedeu às pressões das empresas transnacionais e do capital financeiro, concedendo licenças para expandir a exploração mineral e agrícola em terras anteriormente protegidas, implementando cortes sociais e elevando a dívida externa a níveis recordes.

Consequentemente, a queda da pobreza foi efetivamente interrompida em 2015, e a pobreza extrema começou a crescer novamente em 2018. Isso levou a um ressurgimento da luta de classes e a uma crescente oposição popular ao governo Morales.

Em fevereiro de 2016, Morales perdeu um referendo constitucional que lhe permitiria concorrer à presidência pela quarta vez, um resultado que ele ignorou e que, por sua vez, alimentou a raiva social.

Nas semanas anteriores às eleições de 2019, houve uma greve nacional dos trabalhadores da saúde e uma greve de 20 dias na maior mina do país, em San Cristóbal. Tudo isso aconteceu no contexto das explosões sociais contra a desigualdade no Chile e no Equador.

O golpe foi organizado em resposta aos receios dentro dos círculos dominantes da Bolívia de que Morales estava se tornando incapaz de reprimir a luta de classes. Também estava alinhado com o impulso do imperialismo americano para recuperar sua hegemonia sobre os recursos naturais e os mercados da Bolívia – incluindo as reservas estratégicas de lítio – e toda a América Latina contra os concorrentes chineses e europeus.

O golpe e a consequente repressão, no entanto, não intimidaram a resistência maciça dos trabalhadores e camponeses bolivianos, cuja raiva só cresceu diante da repressão e da resposta desastrosa à pandemia.

 

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