A Operação Ditadura de Trump: O que o debate expôs

3 Outubro 2020

Publicado originalmente em 1˚ de outubro de 2020

O espetáculo decadente do debate de terça-feira à noite entre Donald Trump e Joseph Biden será lembrado na história como o momento da verdade dos Estados Unidos. O mito de uma invulnerável e eterna democracia estadunidense foi destruído. A realidade política foi exposta através dos inúmeros exemplos de propaganda enganosa da oligarquia corporativo-financeira e revelou o fato inegável de que a Casa Branca é o centro nevrálgico político de uma conspiração muito avançada para estabelecer uma ditadura presidencial e suprimir os direitos democráticos constitucionalmente garantidos.

Os grunhidos e latidos de Trump na noite de terça-feira não deixam dúvidas sobre suas intenções. Trump é tão sério sobre as ameaças que fez durante o debate quanto Hitler foi sobre aquelas que escreveu em Mein Kampf. Trump vê a eleição de novembro como uma continuação do golpe de estado político que começou em junho passado em Washington, D.C., quando ele colocou em ação as forças militares e policiais contra manifestantes pacíficos.

A estratégia política de Trump é bastante óbvia e pode ser resumida com a infame frase: “Gritem ‘Devastação’, e deixem escapar os cães de guerra”. A conspiração irá se desenvolver da seguinte maneira:

Em primeiro lugar, durante o mês que resta da campanha eleitoral, Trump fará de tudo para desacreditar o processo eleitoral com a intenção de deslegitimar a contagem dos votos, o que, como ele espera plenamente, mostrará que ele perdeu a eleição por milhões de votos. Ele usará alegações fabricadas de fraude eleitoral para incitar bandos fascistas, assistidos pela polícia e agentes federais não identificados, para intimidar os eleitores e realizar atos violentos nos locais de votação.

Em segundo lugar, na noite da eleição, Trump declarará que é o vencedor, alegando que todas as cédulas enviadas pelo correio são ilegítimas. Ele repetiu durante o debate sua afirmação de que a única maneira que pode perder é se a eleição for “manipulada” através da destruição de cédulas e outras formas de fraude. Mesmo que seja derrotado nas urnas, Trump conta com um atraso na contagem das cédulas de correio para lhe dar a oportunidade de declarar vitória em estados disputados e importantes.

Em terceiro lugar, Trump usará as 10 semanas entre a eleição de 3 de novembro e a posse em 20 de janeiro para mobilizar seus seguidores nas ruas, enquanto recorre à Suprema Corte para decidir a eleição em seu favor. Na terça-feira, ele disse novamente que estava “contando” com a corte para “ver as cédulas”. Ele tem o total apoio do Partido Republicano, que está pressionando pela rápida confirmação da candidata à Suprema Corte de Trump, Amy Coney Barrett, para que ela esteja em condições de votar em qualquer decisão da corte sobre a eleição.

Trump também conta com o apoio da polícia e de setores dos militares, assim como de seu controle sobre o Departamento de Segurança Nacional (DHS). O Washington Post informou na terça-feira que o secretário interino do DHS, Chad Wolf, um amigo de Trump, está preparando neste mês operações de busca de imigrantes pelo Departamento de Imigração e Alfândega (ICE) em “cidades-santuário”, como Denver e Filadélfia. As forças paramilitares federais serão mobilizadas em muitas grandes metrópoles antes das eleições.

Finalmente, e o mais importante de tudo para o sucesso de sua conspiração, Trump tem levado em consideração a covardia do Partido Democrata. Ele espera plenamente que os democratas, além de dizer algumas ameaças vazias, não façam nada para detê-lo.

A falência abjeta do Partido Democrata foi exibida na terça-feira à noite. Enquanto Trump personificava a maldade de uma classe dominante em direção ao fascismo, Biden – fraco e amedrontado – era a personificação da democracia burguesa em seu leito de morte. Embora incessantemente dizendo “O negócio é o seguinte”, Biden passou os 90 minutos do debate evitando o fato de que seu oponente está se preparando para a guerra civil e a ditadura. Ele declarou despropositadamente que, uma vez contados os votos, a crise política terá terminado, e tudo voltará ao normal.

O papel do Partido Democrata é fazer de tudo para minimizar e encobrir a realidade, a fim de impedir qualquer mobilização popular contra Trump. Biden se esforçou para declarar que não se opõe à nomeação de Amy Barrett para a Suprema Corte. Ele a elogiou como “uma pessoa muito boa”, embora Barrett, uma vez na Suprema Corte, seja uma das que vai colocar um prego no caixão político de Biden.

Quando Trump provocou Biden declarando que o candidato do Partido Democrata apoia o “manifesto da extrema esquerda” de Sanders, Biden respondeu repudiando qualquer associação com a política de esquerda: “Eu venci Bernie Sanders ... por uma vantagem muito grande”.

Biden nem mesmo respondeu à saudação verbal de Trump aos fascistas do grupo Proud Boys. Biden prometeu que exigirá que seus próprios apoiadores “fiquem calmos” com a eleição sendo contestada, enquanto Trump insistiu que eles se mobilizassem e questionassem os resultados.

Acreditar que a ditadura pode ser evitada apoiando o Partido Democrata é fechar os olhos para a realidade. As ações dos democratas são determinadas não por uma devoção abstrata à democracia, mas pelos interesses da classe que representam.

Qualquer estratégia para combater a ameaça de ditadura deve se basear numa compreensão correta das causas fundamentais da crise política. Trump é a expressão de uma doença muito mais profunda, cujas origens e caráter devem ser devidamente compreendidos.

Há vários fatores inter-relacionados em ação.

O primeiro é a profunda decadência do capitalismo estadunidense. Em pouco mais de uma década, os Estados Unidos foram devastados por duas grandes crises, primeiro em 2008 e agora em 2020. Em ambos os casos, a classe dominante recorreu a uma injeção maciça e insustentável de recursos – essencialmente, a impressão de dinheiro – para manter os mercados financeiros funcionando. A transferência historicamente inédita de riqueza para os ricos deve ser paga através de uma intensificação do assalto à classe trabalhadora.

O segundo é o declínio acentuado da posição global do imperialismo estadunidense, que acontece devido ao enfraquecimento econômico dos Estados Unidos. Apesar de 30 anos de guerra interminável, a classe dominante estadunidense tem sido incapaz de manter sua posição de hegemonia global. Agora, ela vê na ascensão da China uma ameaça existencial. Todos os recursos devem ser desviados para preparar a guerra global contra a China, da qual o conflito com a Rússia é um dos componentes. Se deve oferecer ração à classe trabalhadora estadunidense.

O terceiro é a concentração espantosa da riqueza nas mãos de uma camada minúscula da sociedade. Os 400 indivíduos mais ricos dos Estados Unidos controlam agora 3,2 trilhões de dólares, e os 1% mais ricos têm uma riqueza maior do que os 40% mais pobres. Um estudo recente da RAND Corporation calculou que a estagnação de renda durante as últimas quatro décadas para os 90% mais pobres da população criou uma perda líquida agregada de renda de 47 trilhões de dólares. A democracia não pode sobreviver diante de tais níveis de desigualdade social.

Todas essas condições fundamentais foram intensificadas pela pandemia, que revelou, da maneira mais flagrante, a disfuncionalidade da sociedade dos EUA. Trump fala e age em nome de uma oligarquia financeira criminosa que apenas protege sua riqueza. Sua resposta à pandemia de COVID-19 tem demonstrado seu desprezo pela vida e pelo bem-estar da população. Sua demanda pela reabertura de escolas é um componente essencial de seu programa de “imunidade de rebanho”, que já levou à morte de mais de 210.000 pessoas nos Estados Unidos. Enquanto o resgate federal aumentou os valores das ações negociadas em Wall Street, dezenas de milhões estão desempregados e as grandes corporações estão planejando demissões em massa.

A classe dominante sabe que enfrenta uma enorme raiva social que tomará uma forma explosiva e potencialmente revolucionária. É isso que confere às ações de Trump seu caráter frenético e imprudente. Aterrorizado com o desenvolvimento da oposição social, ele vê em cada protesto e manifestação de oposição o perigo da “esquerda radical” e do “socialismo”. O crescimento da militância da classe trabalhadora, já aparente na onda de greves, convenceu uma parte substancial da classe dominante de que não há saída a não ser através da violência.

As lições da ascensão do fascismo nas décadas de 1920 e 1930 são de enorme relevância hoje em dia. Os exemplos de Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália e Franco na Espanha demonstram que a guinada ao fascismo e à ditadura vem quando a classe dominante não é mais capaz, por razões inerentes ao caráter da sociedade capitalista, de resolver sua crise por meios democráticos.

Após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, Leon Trotsky alertou que o regime nazista não era um fenômeno exclusivamente alemão:

Atualmente, em todos os países vigoram as mesmas leis históricas: as leis da decadência capitalista. Se os meios de produção permanecem nas mãos de um pequeno número de capitalistas, não há salvação para a sociedade. Ela está condenada a seguir de crise em crise, de miséria em miséria, de mal a pior. Nos diversos países, a decadência e a desintegração do capitalismo são expressas sob formas diversas e com ritmos desiguais. Mas as características básicas do processo são as mesmas em todos os lugares. A burguesia está levando sua sociedade à completa falência. Ela não é capaz de assegurar ao povo nem o pão nem a paz. É precisamente por isso que ela não pode mais suportar a ordem democrática. Ela é forçada a esmagar os trabalhadores através do uso da violência física. [Aonde vai a França, 9 de novembro de 1934].

A classe trabalhadora deve resistir ao golpe de Trump com seu próprio programa e seus próprios métodos.

Em primeiro lugar, isto requer uma ruptura absoluta com o Partido Democrata e todas as forças políticas que trabalham para subordinar as lutas da classe trabalhadora ao sistema capitalista.

Em segundo lugar, os trabalhadores devem rejeitar toda forma de política que procure dividir a classe trabalhadora segundo nacionalidade, raça ou gênero. A luta não é entre os “EUA branco” e os “EUA negro”, mas entre a classe trabalhadora e a oligarquia corporativo-financeira.

Em terceiro lugar, a luta de classes deve ser ampliada e unificada. A lógica da crise levanta a necessidade de os trabalhadores prepararem uma greve geral política através da formação de organizações e comitês populares, controlados pelos trabalhadores e independentes dos sindicatos pró-capitalistas e dos partidos políticos da classe dominante.

Em quarto lugar, a luta pelos direitos democráticos é inseparável da luta contra o sistema capitalista. As muitas formas de protesto social em todo o país – especialmente as manifestações multirraciais contra a brutalidade policial e o crescente movimento contra as exigências de retorno ao trabalho que ameaçam a vida – devem ser unificadas em um movimento consciente de classe contra o capitalismo.

Em quinto lugar, e mais importante de tudo, os trabalhadores estadunidenses devem reconhecer que sua luta nos Estados Unidos faz parte de um movimento global da classe trabalhadora contra o sistema capitalista internacional. Os trabalhadores de todos os países, incluindo os da China e da Rússia, são seus irmãos e irmãs de classe. Eles também estão engajados na luta contra seus governantes capitalistas.

As próximas semanas serão utilizadas pela campanha presidencial do Partido Socialista pela Igualdade para mobilizar a classe trabalhadora e a juventude contra a ameaça de ditadura.

O Partido Socialista pela Igualdade e o World Socialist Web Site fazem um apelo a todos aqueles que se opõem ao golpe de Trump para que aproveitem as lições da história, reconheçam os reais perigos políticos e tomem a decisão de lutar.

Apoie e utilize a campanha presidencial do Partido Socialista pela Igualdade para desenvolver uma compreensão da crise atual e da necessidade de políticas socialistas revolucionárias. Divulgue esta declaração o mais amplamente possível para construir uma oposição contra a Operação Ditadura de Trump.

A classe trabalhadora estadunidense tem o poder de acabar com a conspiração de Trump. Mas isso requer um programa socialista e uma direção genuinamente revolucionária.

Não espere passivamente pelo desenvolvimento dos acontecimentos. Se você compreende o perigo, aja para evitá-lo. E a ação mais efetiva que os leitores do World Socialist Web Site podem tomar é tornar-se membros do Partido Socialista pela Igualdade e lutar para acabar com o capitalismo.

Joseph Kishore e David North