#Trotsky2020: uma calúnia morenista contra o legado de Leon Trotsky

Declaração do Grupo Socialista pela Igualdade brasileiro (em solidariedade com o Comitê Internacional da Quarta Internacional)
1 Setembro 2020

No aniversário de 80 anos do assassinato de Leon Trotsky, a Fração Trotskista da Quarta Internacional (FT-CI) produziu um especial em seu site Esquerda Diário com o título "#Trotsky2020".

Longe de uma apresentação objetiva da história e legado político de Trotsky, líder da Revolução Russa de 1917 e fundador da Quarta Internacional, a suposta comemoração da FT é um ataque aos princípios revolucionários pelos quais Trotsky lutou durante toda sua vida política.

Leon Trotsky

Apesar do nome que este grupo político escolheu para si, a FT não é uma organização trotskista. Ela é a herdeira política do falecido líder revisionista argentino Nahuel Moreno, um representante da tendência pablista que buscou a liquidação da Quarta Internacional e foi responsável por traições históricas à classe trabalhadora na Argentina e América Latina.

Os morenistas da FT estão respondendo de forma desesperada ao ressurgimento da luta de classes em escala internacional. O fato de amplas camadas da classe trabalhadora estarem se levantando contra o sistema capitalista e seus Estados nacionais põe em xeque os desacreditados sindicatos e partidos pseudoesquerdistas da classe média alta aos quais os morenistas estão orientados.

Seus esforços cumprem um papel importante e reacionário à classe dominante na tentativa de desviar a classe trabalhadora mundial do verdadeiro programa e história da Quarta Internacional, encarnados no Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI).

A peça principal da sinistra comemoração do Esquerda Diário dos 80 anos do assassinato de Trotsky é um vídeo super produzido de uma hora e vinte minutos em que representantes de suas organizações em países da Europa, América Latina e Estados Unidos apresentam "diferentes aspectos das elaborações políticas e estratégicas [de Trotsky], historicamente e em sua atualidade". Os quarenta minutos finais são dedicados a uma entrevista com seu líder argentino, Emilio Albamonte.

Os "diferentes aspectos" levantados são recortes de escritos de Trotsky dos anos 1920 e 1930, com um foco obsessivo nas formulações táticas arrancadas de seu contexto histórico. O vídeo dedica-se a analisar a luta política de Trotsky, "da política da frente única entre as grandes organizações do movimento operário para combater a ascensão do fascismo… até a entrada de militantes trotskistas na seção francesa da Social Democracia".

As alusões da FT à reivindicação da frente única e à tática de entrismo dos anos 1930 não passam de uma tentativa de encobrir suas manobras políticas presentes com uma linguagem associada à luta travada por Trotsky.

Uma falsificação da tática da frente única

O primeiro orador do vídeo, porta-voz do grupo alemão da FT, fala da frente única entre o Partido Comunista e o Partido Social Democrata defendida por Trotsky diante da ascensão de Hitler. O segundo, falando da Itália, acrescenta que Trotsky também defendeu a frente única naquele país com o objetivo de combater o "sectarismo".

A FT quer fazer crer que os acordos eleitorais e sindicais burocráticos e sem princípios que fundamentam sua atuação estariam respaldados pelas políticas avançadas por Trotsky. A luta de Trotsky pela frente única enquanto meio de unificar a classe trabalhadora contra a ameaça do fascismo, ao mesmo tempo expondo o caráter traidor do Partido Social Democrata diante das massas operárias organizadas em suas fileiras e conquistando-as a uma política revolucionária, está em oposição direta e clara às práticas atuais dos morenistas.

Assim, Albamonte afirma que em meio à "grandiosa revolta da juventude e dos trabalhadores chilenos", em novembro de 2019, seus militantes do PTR (Partido dos Trabalhadores Revolucionários) conseguiram fazer uma "frente única com a CUT (Central Única dos Trabalhadores) dirigida pelo Partido Comunista". Ele reconhece que isso teria sido impossível quando o PC tinha dezenas de milhares de militantes.

A revolta chilena de 2019 (crédito: Rafael Edwards/Flickr)

Essa admissão deixa claro que tal "frente única" não tem qualquer relação com a unificação das organizações de massas da classe trabalhadora em luta, nem com a exposição da direção do PC. Não passa, de fato, de uma aliança podre entre stalinistas e morenistas com o propósito de desviar a classe trabalhadora da luta revolucionária.

Quando os stalinistas ainda tinham alguma base na classe trabalhadora, eles desprezavam os serviços oferecidos pelos antecessores da FT. Mas, agora que se encontram absolutamente desacreditados e, acima de tudo, apavorados diante do movimento ascendente da classe trabalhadora, a cobertura de "esquerda" dada pelos morenistas a suas traições é por eles bem vinda.

O mesmo método de distorção da perspectiva revolucionária de Trotsky é utilizado pela seção francesa da FT, Revolução Permanente (RP), para justificar sua política reacionária. A porta-voz da RP, Daniela Cobet, descreve a atuação de Trotsky na França de 1936 como uma tentativa desesperada de superar o caráter "muito fraco" de seu grupo, guiada por uma "obsessão" em "encontrar um caminho às massas trabalhadoras" ao invés de "ficar à margem [dos acontecimentos]". Trotsky ofereceu "uma série de táticas, as mais audaciosas e variadas, procurando melhor encarnar a necessidade estratégica de um partido revolucionário."

O que a luta de Trotsky para direcionar o jovem movimento trotskista francês às lutas de massas da classe trabalhadora dos anos 1930 tem a ver com as operações da RP nos dias de hoje? Este grupo está integrado ao pseudoesquerdista Novo Partido Anticapitalista (NPA), um partido da classe média alta orientado aos sindicatos stalinistas e à defesa das intervenções militares do imperialismo francês, da Líbia ao Mali. O NPA é um partido abertamente hostil à classe trabalhadora. Ele se alinhou aos ataques do governo Macron aos Coletes Amarelos, o caluniando de racista e fascista.

Mas os morenistas insistem que esse partido reacionário, que ocupa "um papel relativamente marginal" nas palavras de Cobet, é um instrumento para a continuação e desenvolvimento da luta de Trotsky nos dias de hoje.

O NPA como instrumento para unir "diferentes tradições"

Ela afirma: "Fazer [do NPA] uma ferramenta para a recomposição de uma extrema-esquerda revolucionária que reaviva a audácia tática de Trotsky para construir na França um potente partido revolucionário composto por militantes vindos de diferentes tradições… esta é a melhor homenagem que se pode prestar ao grande revolucionário russo nos 80 anos de seu assassinato."

A FT não tenta explicar como a formação de um partido nacional oportunista "composto de militantes de diferentes tradições" seria um tributo a Leon Trotsky, que lutou implacavelmente contra o stalinismo e o centrismo para construir a Quarta Internacional, insistindo que fora de seus quadros, "não existe, neste planeta, uma só corrente revolucionária que realmente mereça este nome".

A insistência dos morenistas de que o legado de Trotsky é uma coleção de "táticas audaciosas" que oferecem uma solução ao "problema do isolamento" é um tributo não a Trotsky, mas àqueles que tentaram destruir o partido revolucionário internacional que ele fundara. "Encontrar nosso lugar no movimento de massas, como ele é, aonde quer que se expresse e ajudá-lo a elevar-se, a partir de sua própria experiencia, a níveis superiores" foi o mote de Michel Pablo em seus esforços por liquidar a Quarta Internacional.

A FT busca equiparar o legado de Trotsky não apenas às traições do pablismo, mas às teorias de classe média que floresceram nas universidades nas décadas posteriores a sua morte. Trotsky é pintado como o pai do pós-modernismo antimarxista.

Andrea D'atri, falando em nome do Pão e Rosas, a ala feminista da FT, argumenta que Trotsky era um defensor da ideia de que "nem mesmo as transformações materiais mais radicais resolvem por si só a opressão". Ela alega que as grandes manifestações nas últimas celebrações do Dia da Mulher, dominadas pela classe média, seriam vistas por Trotsky como a vanguarda da luta contra o capitalismo.

Dando continuidade ao mesmo tema, Marcello Pablito, em nome do Movimento Revolucionário de Trabalhadores brasileiro, defende a "atualidade de uma estratégia revolucionária e socialista que não se limita a dissolver as questões raciais nas determinações de classe".

Pablito afirma que a "primeira verdade da estratégia revolucionária" consiste em desvendar a relação entre a "luta [do povo negro], que começa para nós pela própria vida, pela nossa identidade e nossa cultura e a tarefa histórica de toda a nossa classe, independente da cor da pele".

Segundo a FT, a potencialidade dessa estratégia que parte das questões raciais teria sido demonstrada pela "fúria negra" despertada nos Estados Unidos com o assassinato policial de George Floyd, levando a protestos no Brasil, "o maior país negro fora da África".

A FT alude aos massivos protestos multiétnicos contra a violência policial para promover políticas raciais.

O que os morenistas não dizem é que a "fúria" contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos se expressou em protestos de caráter multirracial, que se espalharam não somente ao Brasil, mas à Europa e ao redor do mundo, expressando a fúria não apenas contra o racismo, mas contra a desigualdade social, empobrecimento em massa e as políticas homicidas da classe dominante diante da pandemia da COVID-19.

Eles não encontraram uma só citação, mesmo uma frase solta, que lhes permitisse forjar alguma relação entre a obra de Trotsky e a promoção das política identitária antimarxista e antioperária baseada nos interesses da pequena burguesia.

A estratégia revolucionária de Trotsky se baseia na unidade objetiva da classe trabalhadora internacional, determinada por sua relação com a produção capitalista mundial. Com a globalização do capitalismo, a unificação da classe trabalhadora internacional é hoje maior do que nunca. Tentativas de segmentá-la através de linhas raciais, de gênero, ou nacionais servem apenas aos interesses reacionários da classe dominante.

Os ataques da FT à "dissolução das questões raciais em determinações de classe" correspondem aos ânimos de setores da classe média alta, cada vez mais integrados ao Estado burguês. Eles se expressam em partidos pseudoesquerdistas como o Socialistas Democráticos da América (DSA), nos Estados Unidos, e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), no Brasil, aos quais os grupos da FT em ambos países estão totalmente orientados.

Já está claro que a "comemoração" da FT consiste numa distorção e calúnia grosseiras contra o legado político de Trotsky. Mas há ainda um último aspecto que faz desse trabalho uma falsificação histórica especialmente sórdida.

Em uma apresentação dedicada ao intervalo histórico entre a traição da Terceira Internacional que permitiu a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, e o assassinato de Trotsky a mando de Stalin, em 1940, os morenistas deliberadamente omitiram a conclusão de Trotsky dessa traição – sua luta implacável ao longo desse período pela fundação de uma nova, Quarta Internacional para resolver a crise da direção revolucionária na classe trabalhadora.

A fundação desse partido mundial, em 1938, sua história posterior e suas lutas internas são para os morenistas e sua "comemoração" um livro fechado.

É notável que a apresentação do grupo americano, Left Voice, tenha consistido numa jovem passeando pelas ruas de Manhattan enquanto lê trechos do ensaio de Trotsky, "Se os Estados Unidos se tornassem comunistas". Sua conclusão é que a obra demonstra a "imensa criatividade de Leon Trotsky para pensar as possibilidades de um futuro socialista".

Essa tentativa absurda de converter Trotsky numa espécie de socialista utópico só pode ganhar algum aspecto de plausibilidade na medida em que abstrai esse brilhante ensaio da luta – da qual ele era parte – contra o anticomunismo e o impacto destrutivo dos crimes de Stalin sobre a consciência da classe trabalhadora americana e internacional.

Ao mesmo tempo, a apresentação do Left Voice ignorou totalmente a intensa colaboração de Trotsky, nos anos que antecederam seu assassinato, com o movimento trotskista dos EUA, o maior partido da Quarta Internacional, que ganhou uma influência significativa entre classe trabalhadora americana. Sobre isso, nenhuma palavra foi dita.

O morenismo e sua hostilidade à Quarta Internacional

O objetivo central desse trabalho de falsificação histórica é fingir que a Quarta Internacional jamais existiu, não tendo passado de uma ideia na cabeça de Trotsky, que foi enterrada junto a ele. Nas palavras do líder da FT, Emilio Albamonte: "Em primeiro lugar tenho que lhe dizer que o movimento trotskista foi decapitado. Deutscher [Isaac Deutscher, o biógrafo de Trotsky, que foi absolutamente contra a fundação da Quarta Internacional] o definiu como um barquinho pequeno com uma vela enorme. Essa vela desapareceu sob a picareta stalinista".

Depois dessa afirmação brusca, que coincide com a principal intenção dos assassinos stalinistas de Trotsky, Albamonte pode voltar a sua glorificação das supostas táticas de Trotsky como um meio útil de ganhar posições e influência nos partidos pseudoesquerdistas da burguesia, sindicatos e no próprio aparato estatal.

Mas, por que os morenistas são obrigados, no aniversário do assassinato de Trotsky, a encobrir e repudiar o que ele mesmo descreveu como sendo sua maior conquista histórica, ter garantido a continuidade do marxismo e da luta pela construção de uma direção revolucionária na classe trabalhadora internacional através da fundação da Quarta Internacional?

Nahuel Moreno

O PTS (Partido Socialista dos Trabalhadores argentino), a principal organização da FT, tem suas origens no racha do Movimento ao Socialismo (MAS) após a morte de seu líder, Nahuel Moreno, em 1987.

Moreno rompeu com o Comitê Internacional da Quarta Internacional em 1963, se reunificando à tendência revisionista pablista que buscava liquidação da Quarta Internacional no stalinismo, na social-democracia e em movimentos nacionalistas burgueses. Ele passou a perseguir uma política de oportunismo nacionalista extremo, adaptando seu partido ao castrismo e ao peronismo, bem como aos social-democratas e stalinistas argentinos. Ao apoiar o governo direitista de Isabel Perón, seu partido cumpriu um papel crucial em desarmar a classe trabalhadora argentina às vésperas do golpe militar de 1976.

Hoje, o PTS, que se reivindica uma "continuidade" da tendência fundada por Moreno, busca uma política oportunista de alianças eleitorais em torno da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT), que submete seus vários participantes a um programa baseado em populismo de esquerda e adaptação à ala kirchnerista do peronismo.

Em 2017, o líder do principal aliado dos morenistas na FIT, Jorge Altamira do Partido Obrero (PO), definiu precisamente o PTS como um "Podemos de fraldas", referindo-se ao partido de "esquerda" espanhol, hoje o principal parceiro no governo burguês de coalizão liderado pelo PSOE, que está implementando medidas de austeridade contra a classe trabalhadora e uma catastrófica campanha de retorno ao trabalho em meio à pandemia de COVID-19. Apesar da caracterização ser certeira, ela não impediu o PO de continuar sua aliança oportunista com o PST em busca de postos parlamentares.

A suposta comemoração do aniversário de 80 anos do assassinato de Trotsky é uma farsa e, em essência, a tentativa de um segundo assassinato contra todo o seu legado histórico revolucionário.

Mas ela fracassará. Esse legado está materializado, e é defendido e continuado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional com sua luta prolongada contra o revisionismo. O CIQI trava uma luta incansável para trazer essa história às crescentes lutas internacionais da classe trabalhadora construindo assim uma direção capaz de liderar os trabalhadores à vitória e abolição do capitalismo mundial.