Forças armadas e bandos fascistas mobilizados contra bloqueios na Bolívia

Por Tomas Castanheira
13 Agosto 2020

Publicado originalmente em 12 de agosto de 2020

Os bloqueios de vias por trabalhadores e camponeses bolivianos em protesto contra o adiamento das eleições presidenciais chegaram ao décimo dia em meio ao acirramento da crise política e dos conflitos sociais no país.

A oposição generalizada ao governo de facto de Jeanine Áñez se expressa no crescimento dos bloqueios, de pé em mais de 100 pontos ao redor da Bolívia, com novos setores sociais aderindo nas cidades e no campo. A demanda pela queda imediata de Áñez e seu regime, que chegou ao poder em novembro do ano passado através de um golpe apoiado pelos EUA, está ganhando um apoio popular cada vez maior.

A raiva crescente da população está ligada à resposta do governo aos protestos, de um lado se eximindo cinicamente de toda responsabilidade política e, de outro, promovendo uma escalada de ameaças, provocações e ordens de repressão violenta.

Em entrevista à CNN na noite de segunda-feira, o Ministro de Governo Arturo Murillo ameaçou afogar os protestos num banho de sangue e perseguir politicamente seus opositores.

Protesto de massas contra o adiamento das eleições na Bolívia (Crédito: ANRed)

Respondendo ao jornalista Fernando Del Rincón, que questionava por que não realizar uma intervenção militar imediata contra os bloqueios, o ministro afirmou: "Nós estamos tratando de evitar uma guerra civil no país… Não é só sair e meter bala [apesar de que] isso seria o politicamente correto".

"Se não for possível nas próximas horas chegar a um acordo com todos os que causaram este desastre nacional, então só restará agir com a mão mais dura”, concluiu.

Essas ameaças não são retóricas. A única mentira dita por Murillo é que está evitando uma guerra civil. O caminho sendo pavimentado pelo odiado governo para manter-se no poder é precisamente o da repressão violenta contra a população.

Na segunda-feira, as principais cidades bolivianas foram militarizadas, com tropas enviadas às ruas da capital La Paz, Cochabamba e Santa Cruz. Segundo o governo elas estão "resguardando as instituições públicas, de infraestrutura estratégica, como aeroportos e usinas de gás" e aguardam ordens para uma intervenção direta nos bloqueios.

Uma operação militar ostensiva foi mobilizada para escoltar caminhões transportando oxigênio medicinal a diferentes pontos da Bolívia. Uma caravana de caminhões acompanhada de soldados e helicópteros do exército partiu na segunda-feira para cruzar provocativamente vários bloqueios, apesar de os manifestantes afirmarem que não impediriam a passagem de suprimentos médicos.

Mas as forças militares oficiais não atuam sozinhas. Desde o final de semana, os chamados "grupos de choque" organizados por fascistas, que intervieram durante o golpe de novembro, foram mobilizados novamente em Cochabamba, Santa Cruz e La Paz para atacar brutalmente os protestos.

Em Cochabamba, um bando da Resistencia Juvenil Cochala (RJC) se reuniu no bairro de Cala Cala e saiu montado sobre motocicletas e munido de paus e armas de fogo caseiras para se chocar contra bloqueios em nove pontos da cidade. Os fascistas foram acompanhados em suas ações pela própria polícia, que atacou os bloqueios simultaneamente com bombas de gás.

Em Santa Cruz, a Unión Juvenil Crucenista (UJC), ligada ao político de extrema-direita Luís Fernando Camacho, atacou brutalmente manifestantes deixando ao menos 23 feridos, três deles com graves ferimentos por balas de arma de fogo.

A Defensoria Pública boliviana se pronunciou condenando "uma forma de cumplicidade e permissividade por parte do Estado" com as ações violentas dos grupos paramilitares ocorridas no final de semana.

Um relatório publicado em julho pela International Human Rights Clinic de Harvard, reportando violações dos direitos humanos pelo Estado boliviano durante e após o golpe de novembro, aponta para o papel de tais grupos de choque.

Ele reporta: "A Resistencia Juvenil Cochala(RJC) e seus motoqueros parecem ser o mais estruturado e capacitado a ações violentas. A RJC se define como uma organização de policiamento e controle pronta a responder a 'ameaças e vandalismo'. … Próximo às eleições de outubro, a RJC tinha cerca de 150 membros, mas em dezembro de 2020 acredita-se que possuía mais de 20.000 membros nacionalmente. … Foi reportado que eles se armam com paus, canhões caseiros, bazucas, coquetéis molotov, espingardas de pressão e armas de fogo. Vários entrevistados notaram uma 'relação e coordenação muito clara' entre os motoqueros e as forças policiais."

No final de semana, Áñez convocou uma farsesca reunião de "diálogo nacional" para "confirmar a data das eleições e suspender os bloqueios que estão impedindo a passagem de oxigênio aos pacientes de COVID-19 [ênfase adicionada]”.

Se eximindo de responsabilidade pelos sucessivos adiamentos das eleições, sobre os quais interviu ativamente e com apoio declarado do presidente dos EUA Donald Trump, Áñez se recusou a discutir o assunto e criticou hipocritamente o Tribunal Eleitoral, dizendo: "sejam sérios e parem de mudar a data".

Apesar dos principais atores políticos não terem comparecido, incluindo os candidatos à presidência pelo Movimiento al Socialismo (MAS, o partido do presidente deposto Evo Morales) e Corriente Ciudadana (CC), que possuem as maiores intenções de voto, Áñez logrou em fazer do evento um meio de promoção de seus preparativos de violência contra a oposição social, com participação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE) enquanto supervisores internacionais.

A OEA, que cumpriu um papel central na construção do golpe de novembro, está apoiando a campanha fraudulenta do governo de facto que acusa os bloqueios de estar provocando uma crise mortal no abastecimento de oxigênio aos hospitais.

A Secretaria Geral da OEA denunciou que os manifestantes "bloqueiam a passagem de caminhões com insumos sanitários para o combate da COVID-19, no momento em que a pandemia alcançou seu ponto mais alto no país sul-americano".

Também condenou a luta da população boliviana contra o odiado regime que a própria OAS ajudou a implementar como a busca de "interesses miseráveis e mesquinhos" que violam "direitos humanos de ordem pública".

Essas afirmações hipócritas acobertam os verdadeiros criminosos que devem responder pela catástrofe sanitária na Bolívia: não os manifestantes, mas o próprio governo.

Até o momento, mais de 90.000 bolivianos já foram confirmados com COVID-19 e mais de 3.700 morreram pela doença. A média de testagem do país é, contudo, uma das mais baixas do mundo.

A falta de testes não apenas torna esses números uma subestimação grosseira da realidade, mas impede um combate real da doença. Ela se combina à falta dos insumos mais básicos nos hospitais.

A auência de estrutura não é apenas decorrência da falta de recursos no país mais pobre da América Latina. O governo de facto foi indiciado pela compra fraudulenta de respiradores superfaturados que eram, ainda por cima, inadequados ao tratamento da COVID-19.

A situação precária nos hospitais foi denunciada por profissionais de saúde em protestos que irromperam em diferentes cidades da Bolívia. Eles se revoltaram por não receber equipamentos de proteção individual (EPI) do governo, sendo obrigados a comprá-los com o próprio dinheiro ou improvisar com sacos de plástico.

Essas condições levaram a índices de contaminação e morte extremamente elevados entre profissionais de saúde, possivelmente os mais altos do mundo. Segundo a Ministra da Saúde Eidy Roca, ao menos 100 médicos e outros 100 profissionais da saúde morreram de COVID-19 nos últimos cinco meses.

Entretanto, esse número foi considerado bem abaixo da realidade pelo presidente do Sindicato de Setores Médicos de Saúde (Sirmes) Fernando Romero. "Cremos que em todo o país faleceram ao menos 400 médicos e outros 400 trabalhadores da saúde. Somente em La Paz perdemos 100 profissionais de saúde entre médicos, enfermeiras e outros", ele disse.

A contaminação generalizada de funcionários levou, nos últimos meses, ao fechamento temporário para descontaminação de mais da metade dos hospitais do país, acelerando a superlotação dos leitos e causando incalculáveis mortes.

Depois de meses de uma política que permitiu aos bolivianos morrerem no meio das ruas sem atendimento, serem tratados em centro de saúde precários e com medicamentos sem comprovação científica contra a COVID-19 e serem forçados a passar fome durante lockdowns ineficientes na ausência dos testes necessários, o governo criminoso de Áñez, apoiado pelo imperialismo americano e europeu, culpa pelas mortes a oposição social que emergiu dessas condições desastrosas.

Na segunda-feira, doze pessoas foram indiciadas pelo governo como supostos responsáveis pelos bloqueios. Entre os acusados está Evo Morales e os candidatos a presidente e vice-presidente pelo MAS, e o líder da Central Obrera Boliviana (COB) Carlos Huarachi. Eles são acusados dos crimes de "terrorismo e genocídio".

Essas acusações absurdas visam a criminalização de toda a oposição política ao regime, fortalecendo seu poder ditatorial. O ataque é particularmente dirigido ao MAS com o objetivo de eliminá-lo da legalidade.

Da Argentina, onde está exilado, Morales está intervindo na crise política boliviana buscando costurar uma nova aliança burguesa, que envolve os atores do golpe de novembro e seus patrocinadores internacionais.

Frente ao crescimento da disposição de massas da população de enfrentarem diretamente o regime, Morales pede um recuo dos protestos e a aceitação das condições impostas pelo governo e seu Tribunal Eleitoral.

Através do Twitter, ele insistentemente rechaçou a demanda popular pela queda do regime, afirmando: "os dirigentes e as bases sociais mobilizados devem optar responsavelmente entre a renúncia de Áñez que postergará ainda mais nosso retorno à democracia ou eleições antecipadas com a garantia das Nações Unidas".

E afirmou que o "único caminho possível para solucionar a tensão na Bolívia" é um diálogo entre "a Assembleia Legislativa, o Tribunal Supremo Eleitoral e os movimentos sociais".

O caminho sugerido por Morales é a desmoralização e desarmamento das massas frente à ameaça fascista. Abriria caminho à consolidação de uma ditadura baseada na repressão dos crescentes conflitos de classe sob os coturnos dos militares.

Diferente de Morales, os trabalhadores e camponeses não poderão escapar de avião; serão obrigados a viver as consequências do terror de Estado, pagando o preço com o próprio sangue.

A luta que os trabalhadores e camponeses bolivianos travam corajosamente só encontrará um caminho adiante na medida em que extrair as conclusões corretas do processo que levou ao golpe reacionário em novembro de 2019.

Se é verdade que as forças direitistas triunfaram com o apoio decisivo do imperialismo, sua chegada ao poder foi pavimentado pela crise profunda da política nacional-burguesa de Morales, que implementou medidas impopulares e ataques à classe trabalhadora.

Os trabalhadores bolivianos precisam lutar por independência política do MAS, da COB e dos sindicatos que buscam submetê-los a facções da burguesia. Eles só podem contar consigo mesmos e com a aliança com as massas do campo para se defenderem das forças do Estado e dos provocadores fascistas.

Acima de tudo, é necessário construir uma direção revolucionária baseada na unidade com a classe trabalhadora da América Latina e do mundo, e com uma perspectiva verdadeiramente socialista e internacionalista, hoje somente defendida pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional.

 

Os autores também recomendam:

O golpe na Bolívia apoiado pelos EUA
[14 Novembro 2019]