Crescem demandas por cotas raciais nas universidades de elite dos EUA

Por Jonathan Burleigh
17 Julho 2020

Publicado originalmente em 13 de julho de 2020

Em resposta aos protestos multirraciais de massas contra o assassinato policial de George Floyd, estão sendo feitas exigências para implementar cotas raciais em várias universidades de elite dos EUA.

Uma carta aberta ao presidente e reitor da Universidade de Stanford, publicada em 19 de junho no Stanford Daily, exigiu que, até dezembro de 2021, 20% de todos os estudantes, pesquisadores pós-doutorados, funcionários e professores da universidade sejam negros. A carta foi assinada por um grupo de organizações profissionais e estudantis liderado pela Stanford Black Postdoc Association.

Uma carta aberta parecida de atuais e ex-alunos da Woodrow Wilson School of Public and International Affairs da Universidade de Princeton exigiu que 25% dos professores da escola sejam negros até 2022. A carta também pediu a remoção de Woodrow Wilson do nome da escola, uma exigência que Princeton concordou e sobre a qual o World Socialist Web Site já escreveu anteriormente.

Enquanto isso, os reitores da Universidade da Califórnia, responsáveis por um dos principais sistemas universitários públicos do mundo, aprovaram reinstituir a política de ação afirmativa. A decisão, que afetará todo o ensino superior público na Califórnia, será decidida em um referendo estadual em novembro.

A carta aberta publicada no Stanford Daily inclui uma série de outras medidas além da cota racial de 20% para negros no campus.

Uma das medidas exige que “100% das bolsas de pós-doutorado sejam para negros”.

Uma pessoa recebe uma bolsa paga de pós-doutorado por um ou mais anos após defender sua tese de doutorado, o que é considerado um trampolim para se conseguir um cargo de professor universitário.

O número de pós-doutorados tem aumentado acentuadamente junto com a dificuldade de obter um cargo universitário seguro e em tempo integral. Em meio à pandemia, tornou-se praticamente impossível para a grande maioria de doutores garantir tal posição na academia. Nesse contexto, a exigência para que todas as bolsas de pós-doutorado sejam oferecidas a pessoas negras, simplesmente por causa da cor de sua pele, significa tirar a oportunidade de outras com as qualificações necessárias para realizar o pós-doutorado.

Outras exigências incluem a criação de cátedras em cada escola (Stanford tem sete escolas, com vários departamentos em cada uma delas) reservadas para professores que se identificam como descendentes de escravos, a coleta de informações raciais e étnicas mais detalhadas da população universitária, o aumento dos negócios de pessoas negras no campus e no mínimo dois professores negros e dois estagiários negros em cada departamento acadêmico. Isso faria com que, em um departamento como o de Literatura Eslava, que tem cinco professores, dois deles fossem negros.

Para implementar essas exigências, os signatários propõem que seja criado um novo centro no campus de profissionais assalariados de “equidade” em tempo integral. O centro seria responsável em assegurar o cumprimento dessas exigências, bem como por analisar casos de racismo dentro da população do campus e realizar capacitação obrigatória “contra o racismo” em todo o campus.

Segundo a carta, “Esta capacitação deve ter pelo menos oito horas de duração e deve ir além do treinamento tradicional (ou seja, preconceito implícito e micro-agressões) já disponível e em uso”. E continua: “Qualquer indivíduo que for denunciado por ter cometido ou se envolvido em injustiça racial deve realizar 40 horas adicionais não remuneradas de capacitação contra o racismo como uma primeira advertência”.

A última frase merece atenção especial. A exigência se aplica a qualquer pessoa que supostamente [“tenha”] “cometido” ou “se envolvido em injustiça racial”. Evidentemente, não haverá processo justo para o acusado, que será punido com base em uma mera denúncia. Quem, além disso, decidirá o que é “injustiça racial”?

A carta continua dizendo que “capacitação direcionada para aquelas escolas e departamentos que demonstrem inclusão racial inadequada será obrigatória e incluirá consequências tão drásticas quanto a perda de espaço e/ou apoio financeiro”, e que “a demissão de docentes e funcionários deve ser uma consequência possível e real caso se envolvam repetidamente em ou demonstrem discriminação desnecessária”.

Esta exigência é suficientemente ampla para estabelecer uma polícia do pensamento operando com poder desmedido para destruir os empregos e carreiras daqueles que se opuserem ao tipo de política racial defendido por eles.

Isso não tem nada a ver com os interesses e necessidades da grande maioria dos trabalhadores e estudantes, sejam eles negros ou brancos. Pelo contrário, é uma manifestação dos interesses egoístas dos aspirantes a acadêmicos de classe média alta. Como em toda política baseada na identidade, os interesses sociais expressos são os das camadas que procuram obter uma parcela maior da riqueza das camadas superiores da população, não a redistribuição radical da riqueza para todos.

A premissa fundamental da carta é que estudantes, professores e funcionários brancos carregam a culpa pela escravidão, pela segregação e pela contínua discriminação dos negros nos EUA simplesmente em virtude da cor de sua pele. Todos os brancos devem ser recriminados, “capacitados” e ter seu racismo inato expurgado.

Não é por acaso que tais exigências são levantadas exatamente quando manifestações multirraciais e multiétnicas de massas, não apenas nos EUA, mas internacionalmente, demonstram uma oposição ao racismo e à repressão policial entre as camadas mais amplas da população, desafiando a ideia de que trabalhadores negros, brancos, latinos e asiáticos são inerentemente separados e opostos uns aos outros.

Nem é por acaso que a carta não diz nada sobre as questões sociais que dizem respeito à classe trabalhadora de todas as raças. Não há menção à pandemia, ao catastrófico número de casos e mortes por COVID-19, à destruição de milhões de empregos e ao iminente tsunami de despejos e de bens hipotecados, muito menos à cumplicidade dos democratas e republicanos na elaboração do resgate colossal de Wall Street e ao impulso para obrigar milhões a trabalhar em fábricas, centros de distribuição e escolas infectadas pelo vírus. É claro que a palavra “capitalismo” nunca aparece, nem “classe”.

Na verdade, o programa que está sendo levado adiante é o do “capitalismo negro”, que foi implementado por Nixon e pelos elementos mais de direita do movimento pelos direitos civis em resposta às rebeliões urbanas que abalaram os Estados Unidos no final dos anos 60, incluindo figuras como Roy Innis. Isso é enfatizado pela exigência da carta por mais negócios de pessoas negras no campus.

O racismo é o produto do capitalismo e da tentativa da classe dominante de dividir os trabalhadores e outras massas oprimidas de se revoltarem juntos contra seus opressores. A política racial é promovida pelo Partido Democrata e por seus aliados na mídia, como o New York Times, com o mesmo objetivo fundamental, procurando interpretar cada questão social – pobreza, desemprego, o impacto da pandemia, saúde, educação – como um problema racial, ocultando assim a linha divisória básica na sociedade – classe – e desviando a atenção do próprio sistema capitalista.

Não há nada de democrático ou progressista na implementação de cotas raciais em universidades ou locais de trabalho. Tais políticas promovem uma agenda de privilégios especiais de uma identidade em detrimento de outras, ao invés de levar adiante uma luta pela plena igualdade e o direito ao ensino superior gratuito para todos.

Para cada estudante admitido ou professor contratado negro a partir de cotas, existe outro estudante ou professor que é privado da posição, seja ele latino, branco, asiático, das ilhas do Pacífico, nativo americano ou descendente de vários grupos étnicos. Em meio à destruição do direito à educação, isso irá fomentar divisões raciais.

As exigências para implementar cotas raciais nas universidades estadunidenses de elite estão acontecendo ao mesmo tempo que a maioria das faculdades e universidades dos EUA se preparam para uma onda histórica de cortes orçamentários provocados pela pandemia, que irão superar aqueles impostos após a crise de 2008.

Na Califórnia, onde fica a Universidade de Stanford, o mais atingido pelos cortes será o sistema de Faculdades Comunitárias da Califórnia (CCC, na sigla em inglês). O CCC tem 2,1 milhões de estudantes em 115 faculdades, tornando-o o maior sistema de ensino superior do país. O orçamento do governador democrata Gavin Newsom cortará quase US$ 1 bilhão do orçamento do CCC somente no próximo ano.

O sistema da Universidade Estadual da Califórnia, o maior sistema universitário do país, perderá US$ 400 milhões, e a Universidade da Califórnia terá seu orçamento reduzido em US$ 363 milhões segundo o plano do Governador Newsom.

Uma exigência genuinamente igualitária e progressista na educação é o chamado para que todos tenham um trabalho e educação gratuita e de alta qualidade retirando os trilhões de dólares que vão para a guerra e redirecionando esse dinheiro para atender às necessidades sociais. Esses direitos não devem ser divididos de acordo com gênero, orientação sexual, etnia, nacionalidade ou idade, mas devem ser oferecidos gratuitamente e igualmente a todos. A riqueza já acumulada pelos mais ricos da sociedade torna isso possível. Trilhões de dólares devem ser destinados a programas para expandir a pesquisa científica, educar a ampla massa da população, não apenas a elite, e resolver problemas críticos como o aquecimento global, o câncer e a COVID-19.

Acabar com o racismo significa acabar com o sistema de opressão de classe que o gera, não promover cotas raciais em uma sociedade incrivelmente desigual.

Esse direito social fundamental será conquistado, e só poderá ser conquistado, unificando todos os trabalhadores e jovens nos EUA e em todo o mundo através de uma luta social e política revolucionária por governos dos trabalhadores e pelo socialismo – a reestruturação radical da economia global para atender às necessidades sociais de todos, em oposição aos interesses parasitários e privados da classe dominante.