Bolsonaro ameaça com ditadura diante de crise da COVID-19

Por Miguel Andrade
28 Março 2020

Publicado originalmente em 27 de março de 2020

Em um pronunciamento televisionado nacionalmente na noite de terça-feira, o presidente fascista Jair Bolsonaro intensificou a campanha de ataques à classe trabalhadora brasileira desencadeada pela elite dominante desde que os primeiros casos de COVID-19 foram registrados na maior cidade do país, São Paulo.

Apenas um mês após a detecção do primeiro caso, o Brasil possui 2.915 casos confirmados e 77 mortes. O Ministério da Saúde admite que o número de casos seja grosseiramente subestimado, uma vez que apenas pacientes com sintomas graves estão sendo testados. Um estudo da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres descobriu que a subnotificação no Brasil pode chegar a 90%, elevando o total de casos para 30.000.

Na terça-feira, começaram a valer os decretos que obrigaram o fechamento de lojas no estado mais populoso do Brasil, São Paulo, e na cidade do Rio de Janeiro, a segunda maior do país. Todos os estados brasileiros já fecharam as escolas e vários ordenaram fechamentos parciais em outros setores.

Jair Bolsonaro (Crédito: Wikipédia Commons)

Em seu discurso, Bolsonaro disse que as reportagens da imprensa sobre o número de mortos na Itália “espalharam a sensação de pavor”, que a pandemia terminaria “em breve” no Brasil e chamou o fechamento parcial do comércio de “terra arrasada” que deveria ser abandonado.

Ele ignorou evidências médicas e afirmou que “90%” dos infectados “não terão qualquer manifestação” dos sintomas e que ele, em particular, pelo seu “histórico de atleta ... seria, quando muito, acometido de uma gripezinha”.

No dia seguinte, Bolsonaro disse a repórteres reunidos em frente ao Palácio da Alvorada que as medidas de quarentena levariam ao caos, fazendo “o que aconteceu no Chile”, onde milhões de trabalhadores saíram às ruas contra a desigualdade social, “ser fichinha perto do que pode acontecer no Brasil”. Ele alertou de maneira sombria que isso pode fazer com que o Brasil saia “da normalidade democrática que vocês [a imprensa] tanto defendem”.

Esta ameaça de golpe aconteceu depois de Bolsonaro ter declarado, dias antes, que seria “relativamente fácil” decretar estado de sítio no país e suspender a Constituição no caso de distúrbios sociais causados pela pandemia.

Em todo o mundo, as classes dominantes estão utilizando os catastróficos danos socioeconômicos da pandemia para aumentar sua já enorme riqueza através de resgates e da flexibilização quantitativa, além de intensificar a exploração dos trabalhadores ameaçados de não ter dinheiro para comer.

Mas poucos governantes expressaram essa atitude de maneira tão cruel e franca como Bolsonaro. Declarações ainda mais criminosas foram dadas por empresários brasileiros, com o herdeiro de uma das maiores redes de fast food do país dizendo que os trabalhadores deveriam estar com mais medo de perder o emprego do que da COVID-19.

Com 23 membros de sua comitiva que visitou o resort Mar-a-Lago do presidente dos EUA, Donald Trump, no início de março diagnosticados com o novo coronavírus, Bolsonaro se recusou a revelar os laudos de seus exames, dizendo que o fato de não ter apresentado sintomas é uma prova de sua tese de que a doença não é grave e que ele de alguma forma não seria vulnerável à COVID-19.

Tendo criado no final de 2019 seu partido fascista, Aliança pelo Brasil, baseado na “lealdade aos seus princípios” e na crença de que sua presidência é a realização de uma providência divina, Bolsonaro tem procurado fazer da questão de sua saúde uma maneira de solidificar apoio entre sua base de extrema direita.

Ele tem repetidamente falado sobre isso desde quando apoiou e participou das manifestações fascistas de 15 de março, que atraíram milhares de seus apoiadores pedindo que o Exército feche o Congresso e o Supremo Tribunal Federal para lhe conceder poderes ilimitados. Uma questão central dessas manifestações foi a negação da pandemia, que foi zombada por seus participantes e pelo próprio presidente.

O comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, disse na terça-feira que o Alto Comando do Exército considera que a pandemia “talvez seja a missão mais importantes da nossa geração”. Os editoriais dos jornais burgueses escolheram subestimar essa declaração, alegando, sem qualquer evidência, que, nas palavras da jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, “o Exército mostrou que não atuará como guarda pretoriana de Bolsonaro”. De fato, isso pode sinalizar que, pelo contrário, os militares estão mais uma vez considerando tomar o poder.

Por sua vez, o Partido dos Trabalhadores (PT), depois de ignorar inicialmente a pandemia como uma “desculpa” utilizada por Bolsonaro para a estagnação econômica que tem atormentado o Brasil desde que chegou ao poder, tem procurado agora explorar a pandemia do novo coronavírus como uma oportunidade para se aproximar ainda mais de importantes frações da classe dominante, especialmente aquelas insatisfeitas com o beco sem saída da tentativa sem precedentes de Bolsonaro de subordinar a política externa do Brasil aos interesses do imperialismo dos EUA.

O líder do PT, ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declarou na quarta-feira que “Bolsonaro não tem estatura psicológica para comandar o Brasil”, devendo sofrer impeachment ou renunciar. Isso foi um aceno para a declaração, dias antes, de ex-aliados de Bolsonaro de que ele deveria ser avaliado por uma junta médica e declarado impróprio para o cargo, uma vez que o processo de impeachment seria “muito doloroso”.

Toda a classe dominante brasileira está unida em impor aos trabalhadores brasileiros a opção de adoecer e infectar seus entes queridos ou morrer de fome. Um relatório recente constatou que 10 milhões de trabalhadores nas favelas do país não têm economia alguma e não teriam dinheiro para comer após uma semana de quarentena. As medidas de quarentena farão pouco para uma família de três gerações amontoada em casas de um quarto de bairros densamente povoados.

Essas condições só podem levar a uma explosão da luta de classes no Brasil. Os delírios de Bolsonaro são uma expressão do desespero da classe dominante brasileira enquanto se prepara para atos de repressão sem precedentes.