O caminho a seguir para a massiva greve na França

10 Dezembro 2019

Publicado originalmente em 7 de dezembro de 2019

Na quinta-feira, mais de um milhão de trabalhadores do setor público e jovens entraram em greve e realizaram protestos contra a reforma da previdência do presidente francês, Emmanuel Macron. As greves de ferroviários, professores e trabalhadores de outras categorias continuaram na sexta-feira, paralisando a maior parte do transporte público e fechando muitas escolas.

Esses eventos marcam uma nova etapa no ressurgimento internacional da luta de classes. Mais uma vez, no coração da Europa, as fundamentais linhas de classe da sociedade estão sendo traçadas e a classe trabalhadora está demonstrando seu enorme poder social e potencial revolucionário. A resposta assustada da burguesia internacional foi indicada pela manchete do New York Times sobre a massiva greve de quinta-feira: “Um Dia de Revolução na França, Contra Macron”.

Manifestantes em Rennes, no oeste da França, na última quinta-feira (Crédito: AP Photo/David Vicent)

A questão fundamental na França – como nas greves e protestos de massas no Chile, Bolívia, Equador, Líbano e Iraque, além das greves de trabalhadores automotivos nos EUA e México e de ferroviários britânicos – é o nível maligno de desigualdade social produzido pelo capitalismo.

Essa erupção da luta de classes expõe todas as tentativas de negar o papel revolucionário da classe trabalhadora e de elevar raça e gênero acima de classe como a divisão fundamental da sociedade. Como o movimento inicial na França demonstrou mais uma vez, quando os trabalhadores entram em luta, o fazem como uma classe.

Essa nova etapa da luta levanta questões políticas críticas diante da classe trabalhadora, principalmente a necessidade de construir uma nova liderança socialista.

Mais de um ano após o início dos massivos protestos dos coletes amarelos, nenhuma das principais exigências dos manifestantes foi cumprida: igualdade, melhores condições de vida e fim da miséria social, da repressão policial e da guerra. Camadas crescentes de trabalhadores estão concluindo que é hora de pôr um fim ao domínio da aristocracia financeira.

A resposta da elite dominante pode ser resumida da seguinte maneira: Muita coisa para a democracia! Na quinta-feira, Macron enviou carros blindados, canhões de água e milhares de policiais fortemente armados para atacar os grevistas que protestavam pelas cidades da França. Um governo sem nenhum apoio popular está mobilizando a polícia paramilitar para esmagar protestos contra políticas que 70% da população se opõe.

Na França, como em todos os países, o estado capitalista é uma ditadura velada da elite financeira.

O desenvolvimento de uma estratégia para a classe trabalhadora nessa luta requer uma identificação correta de seu caráter e de sua dinâmica fundamentais. Os trabalhadores na França estão lutando não apenas contra Macron, mas também contra o capitalismo global, que está afundado em sua mais profunda crise econômica e política desde a década de 1930 e enfrenta um aumento crescente da luta de classes.

O caminho a seguir é uma luta para derrubar o governo Macron, atraindo camadas cada vez mais amplas de trabalhadores e jovens para o movimento.

Como isso deve ser feito? Uma alternativa política revolucionária deve ser estabelecida. Os trabalhadores não podem se limitar, como proposto pelo líder sindical da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Philippe Martinez, a realizar greves periódicas exigindo que Macron retire sua reforma da previdência, esperando que o presidente dos ricos negocie novas medidas com a CGT. Isso levará apenas à derrota.

Faz meio século desde as últimas concessões sociais significativas feitas à classe trabalhadora francesa, quando a CGT traiu a oportunidade revolucionária apresentada pela greve geral francesa de 1968 em troca de aumentos salariais dos Acordos de Grenelle. Hoje, porém, a crise econômica e política do capitalismo é muito mais profunda. Não haverá resultado reformista da luta de classes.

O partido República em Marcha (LRM) de Macron deixou repetidamente claro que não recuará.

Depois que conflitos violentos sobre a política militar eclodiram na cúpula da OTAN desta semana em Londres, a LRM está determinada – com o objetivo de reforçar a defesa europeia e a competitividade econômica francesa – a continuar canalizando centenas de bilhões para o exército e os super-ricos. Permitir que Macron permaneça no poder, mesmo que ele retire sua reforma da previdência, só dará tempo para ele preparar a próxima etapa da contrarrevolução social.

A estratégia da CGT, ecoada por grupos pequeno-burgueses como o Novo Partido Anticapitalista (NPA) e a França Insubmissa (LFI) de Jean-Luc Mélenchon, é uma fraude.

A CGT não decidiu esta semana liderar uma luta para defender a previdência. Ao longo dos protestos dos “coletes amarelos”, que os sindicatos isolaram e denunciaram como neofascistas, a CGT discutiu a reforma da previdência com o governo Macron, mesmo sabendo muito bem que tanto a reforma quanto o governo eram massivamente impopulares. A CGT convocou uma greve apenas no mês passado diante de ataques violentos às Ferrovias Nacionais e protestos em hospitais e escolas, temendo que a oposição pudesse escapar de seu controle.

A CGT está colaborando com o Estado para esgotar e desorientar os trabalhadores e vender a luta. A classe dominante está bem ciente do papel da CGT. Quando a polícia de choque atacou grevistas em Paris, Lyon e outras cidades na quinta-feira, o primeiro-ministro, Edouard Philippe, disse: “Greves e protestos aconteceram conforme o planejado”. Ele aproveitou a oportunidade para “elogiar os sindicatos pelo seu sucesso organizacional”.

O caminho a seguir é retirar a luta das mãos dos sindicatos. O Parti de l’égalité socialiste (PES – Partido Socialista pela Igualdade), a seção francesa do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), chama a formação de comitês de ação, independentes dos sindicatos e de seus aliados políticos. Nesses órgãos, trabalhadores e jovens poderão planejar e decidir livremente greves, protestos e outras ações a serem realizadas. Eles poderão chamar seus irmãos e irmãs internacionais de classe para apoiar uma luta revolucionária contra Macron e a aristocracia financeira.

Contra os ditames dos mercados financeiros globais e a crescente escalada militar europeia, esse chamado à classe trabalhadora internacional é uma candente necessidade, como o CIQI explicou em sua declaração de 2018 sobre o movimento dos “coletes amarelos”:

O caráter explosivo dos eventos na França expressa as enormes contradições sociais que se acumularam ao longo de quase três décadas desde a dissolução da União Soviética em 1991, e particularmente nos últimos dez anos desde a crise financeira de 2008. Intenso ódio ao capitalismo e às condições que ele criou na França e em todo o mundo – o impressionante nível de desigualdade social, a acumulação infinita de riqueza em uma pequena porcentagem da população, os níveis cada vez maiores de pobreza e sofrimento – estão aparecendo na superfície da vida política ... O que está impulsionando esses acontecimentos na França não são essencialmente condições nacionais, mas globais.

Essa avaliação foi confirmada. Este ano houve uma erupção global de massivos protestos e lutas da classe trabalhadora. Eles destruíram as teorias pós-modernistas dos “populistas de esquerda” da classe média tiradas do movimento estudantil pós-1968, cuja linha é resumida no livro de André Gorz, Adeus à classe trabalhadora (1980). Em seu livro de 2014, A Era do Povo, Mélenchon declarou que era necessário “ir além” do socialismo. Ele disse que a esquerda estava “morta” e “o povo toma o lugar que a ‘classe operária revolucionária’ ocupava na política da esquerda”.

Essas forças desacreditadas estão girando decisivamente para a direita. Nesta semana, quando as massas de trabalhadores protestaram, Mélenchon reagiu promovendo a declaração vazia de apoio da neofascista Marine Le Pen à greve, considerando-o um “progresso” em uma direção “humanista”.

O ressurgimento de massivas greves e protestos em todo o mundo está mostrando novamente que a força revolucionária decisiva na sociedade capitalista é a classe trabalhadora e que a luta revolucionária pelo socialismo está na agenda histórica.

O PES defende a construção de comitês de ação de trabalhadores para mobilizar todo o poder industrial da classe trabalhadora, colocar as fábricas e os locais de trabalho sob o controle democrático dos trabalhadores e expropriar a riqueza da aristocracia financeira. Isso deve estar ligado a uma estratégia política para construir a unidade internacional da classe trabalhadora com o objetivo de tomar o poder do Estado e reorganizar a vida econômica a partir da necessidade social, não do lucro privado.

Alex Lantier