O papel reacionário da política nacional-oportunista na América Latina

O WSWS rejeita convite para conferência de falidos políticos em Buenos Aires

Por Bill Van Auken
19 Abril 2019

Publicado originalmente em 13 de Abril de 2019

O que se segue é uma resposta a um convite enviado ao World Socialist Web Site pelo grupo Razón y Revolución na Argentina para participar de uma conferência que ele e o grupo brasileiro Transição Socialista convocaram em Buenos Aires entre os dias 12 e 14 de abril.

Recebemos sua questão em nome do grupo Razón y Revolución na Argentina para saber se o Partido Socialista pela Igualdade e o Comitê Internacional da Quarta Internacional estão interessados em participar de seu “Congresso Internacional da Esquerda Socialista e Revolucionária” este mês em Buenos Aires. Não apenas não estamos interessados, como somos completamente hostis a essa conferência e advertimos ativamente trabalhadores, estudantes e jovens contra o tipo de política nacional-oportunista sórdida expressa na declaração convocatória deste encontro de falidos políticos e anti-trotskistas.

Por que alguém que está genuinamente procurando construir uma liderança revolucionária socialista internacional quer se relacionar com aqueles que atacam ativamente o legado histórico de Leon Trotsky e da Quarta Internacional, ao mesmo tempo que exaltam o papel “revolucionário” de Stalin, como é o caso do grupo Razón y Revolución?

Ou, por falar nisso, quem gostaria de discutir o programa revolucionário em uma conferência que é co-organizada por membros de um grupo que colabora em todos os aspectos com o imperialismo dos EUA em sua operação de mudança de regime na Venezuela, como é o caso da Transição Socialista?

A declaração sobre a qual este “congresso internacional” foi convocado baseia-se exclusivamente na conjuntura política da América Latina, uma expressão da perspectiva nacionalista pequeno-burguesa que caracteriza seus organizadores. O crescimento da luta de classes nos Estados Unidos, Europa e Ásia é ignorado, assim como as características fundamentais da crise global do capitalismo e as imensas ameaças à classe trabalhadora pelo crescimento dos conflitos inter-imperialistas, pelos preparativos para uma guerra mundial e pela promoção por setores da classe dominante e pelo estado de forças fascistas em escala mundial.

Em relação à América Latina, a declaração é uma apresentação unilateral do que é descrito como uma “oportunidade inigualável” para aproveitar o naufrágio da chamada “Maré Rosa” sob o impacto da crise capitalista global.

O trecho mais importante da declaração é o seguinte: “Convidamos todas as organizações e ativistas socialistas que enfrentam de maneira séria e consequente o chavismo, o PT, o kirchnerismo, o masismo na Bolívia e toda as expressões do reformismo e do nacionalismo para um congresso internacional para fundar “uma nova esquerda, sem amarras e sem condicionamentos a qualquer ‘sagrada escritura’, e coordenar uma ação comum em Buenos Aires, entre os dias 12 e 14 de abril.”

Essa garantia de fundar “uma nova esquerda sem amarras” e a rejeição de “condicionamentos a qualquer ‘sagrada escritura’” é um repúdio explícito a quaisquer princípios marxistas que impediriam as práticas nacionais-oportunistas de todas as organizações que participam deste encontro, ou quaisquer futuras alianças com qualquer e todas as tendências anti-trotskistas na “esquerda” latino-americana, dos stalinistas aos maoístas e aos peronistas de esquerda, assim como as variantes da pseudo-esquerda do morenismo e do altamirismo.

Em relação aos que “enfrentam de maneira séria e consequente” o chavismo, o parceiro do grupo Razón y Revolución na convocação da conferência de Buenos Aires, o grupo brasileiro Transição Socialista, fornece um exemplo ilustrativo das horrendas profundezas para as quais a política nacional-oportunista pode afundar.

Sob a presidência de Hugo Chávez em 2009, a organização predecessora da Transição Socialista, o Movimento Negação da Negação (MNN), denunciou “a chamada revolução bolivariana” como “uma farsa, um verdadeiro Estado bonapartista e autoritário que está dando grandes passos em direção a um regime fascista.”

Apenas quatro anos depois, após a morte de Chávez e a estreita vitória de seu sucessor, Nicolas Maduro, na eleição venezuelana de 2013, o MNN realizou uma guinada radical. Ele ignorou a acentuada queda no voto chavista, que foi causada pela raiva crescente da classe trabalhadora por causa da deterioração de sua condição de vida, do aumento da desigualdade social e do auto-enriquecimento corrupto da chamada boliburguesia, que é composta por especuladores financeiros, fornecedores do governo e altos comandantes militares e funcionários do Estado, descrevendo-a como o resultado de um “jogo pesado, sujo e sistemático do imperialismo para desestabilizar o governo e influenciar o resultado das eleições”.

O MNN elogiou a proibição de manifestações em Caracas por Maduro, alegando que “possíveis novos conflitos teriam aberto uma espiral de instabilidade cujo resultado seria incalculável”. Em outras palavras, ele depositou plena confiança nas forças repressivas do Estado burguês liderado por Maduro, não na força independente da classe trabalhadora.

O mais espantoso de tudo, para um partido que afirmava estar lutando pelo socialismo no Brasil, foi o MNN justificar “uma política de unidade tática com o governo Maduro”, pois “o próprio Maduro tem origem na classe trabalhadora e no movimento sindical” e, “pela primeira vez na história do chavismo, um operário assumia o controle das forças armadas, demarcando uma nova etapa”. Isso foi escrito depois de oito anos do governo do “presidente operário” Luiz Inácio Lula da Silva, que governou em nome da classe dominante capitalista brasileira e realizou incontáveis ataques à classe trabalhadora brasileira!

Agora, a Transição Socialista realizou mais um giro de 180 graus. Em resposta à crise em curso na Venezuela, ela afirma: “O central é dizer, de forma clara, com o movimento de massas, ‘Fora Maduro’. Derrubar Maduro e abrir contradições. É preciso, sim, saber fazer aliança temporária com o setor burguês opositor a Maduro, para, antes de tudo, derrubá-lo. Bater juntos e marchar separados. Participar das mesmas passeatas e disputar o povo trabalhador dentro do movimento real. Mas isso deve ser feito de tal forma que solape, no médio prazo, a hegemonia do setor burguês que se opõe a Maduro.”

A utilização de uma palavra de ordem avançada por Trotsky na luta pela tática da frente única dos partidos operários contra o fascismo na Alemanha para justificar uma “aliança temporária” com a oposição burguesa venezuelana liderada por Juan Guaidó, do partido fascista Voluntad Popular, e seus apoiadores da CIA é nada menos que obscena. Com o tempo, a Transição Socialista pode se encontrar tentando “bater juntos e marchar separados” com os fuzileiros navais dos EUA.

Essa abordagem de “disputar” a liderança do “movimento real” da pequena burguesia de direita não é novidade para a Transição Socialista, que adotou a mesma postura diante das manifestações em massa lideradas pela direita brasileira que exigiram o impeachment da presidente do PT, Dilma Rousseff, e a “intervenção militar” contra o seu governo.

Não há absolutamente nada de “esquerda” ou de “revolucionário” em tal política. Esse é o histórico de canalhas políticos.

A única coisa “consistente” sobre a política da tendência que agora se chama Transição Socialista é sua capitulação a uma ou outra facção da burguesia nacional ao longo de décadas – do Partido dos Trabalhadores ao chavismo e aos agora fantoches financiados pela CIA na Venezuela.

Estamos bem conscientes das concepções políticas subjacentes ao seu chamado à unidade “sem amarras” e baseada no repúdio a quaisquer restrições impostas por qualquer “sagrada escritura”.

Embora poucos tenham expressado esse princípio organizador de maneira tão grosseira, ele foi utilizado em inúmeras tentativas anteriores – todas elas fracassadas, como a sua será – para forjar uma fusão de organizações politicamente heterogêneas, sem qualquer acordo sobre questões essenciais de programa e estratégia. A única pré-condição absoluta é que nenhuma organização deve ser chamada para dar conta de seu histórico político, e que cada uma delas deve ser livre para perseguir qualquer política nacional que julgue ser de seus melhores interesses imediatos. Essa abordagem sem princípios é diametralmente oposta a do Comitê Internacional da Quarta Internacional.

Seus esforços não são exclusivos. O Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) na Argentina está chamando a formação de um partido unificado de esquerda, enquanto o Partido Obrero (PO) de Jorge Altamira chamou pela “refundação” da Quarta Internacional em aliança com stalinistas russos. Todas essas manobras políticas acontecem por causa de uma plataforma semelhante que rejeita qualquer exame ou discussão do papel desempenhado pelas tendências revisionistas anti-trotskistas nas traições da classe trabalhadora. Uma anistia política geral é garantida a todos.

Qualquer tentativa de remendar uma tendência internacional baseada na supressão das lições históricas da luta travada pela Quarta Internacional só pode contribuir para a traição da classe trabalhadora.

Você fala em “enfrentar de maneira séria e consequente” o Partido dos Trabalhadores, o chavismo e outras tendências burguesas, mas permanece em silêncio sobre quais forças políticas os promoveram e quais lutaram contra eles?

As mesmas tendências pablistas e morenistas que promoveram o castrismo como uma nova via para o socialismo – unidas pelos renegados lambertistas da Quarta Internacional – desempenharam um papel crítico na criação do PT e sua promoção como um caminho exclusivamente brasileiro para o socialismo. Elas ajudaram a construí-lo e a transformá-lo em um partido burguês completamente corrupto que durante doze anos serviu como o instrumento preferido de governo da burguesia brasileira.

A amarga experiência com a política do nacionalismo burguês, e com os defensores pablistas e da pseudo-esquerda dessa política, reforça a necessidade de se construir um novo movimento marxista revolucionário, baseado na mobilização política independente da classe trabalhadora e na unificação dos trabalhadores na América Latina com trabalhadores nos Estados Unidos e ao redor do mundo em uma luta comum para pôr fim ao capitalismo.

Essa tarefa histórica é impossível sem aprender as lições dos erros e traições do passado para que não se repitam. Isso, acima de tudo, significa o estudo e a assimilação da longa história da luta travada pelo trotskismo contra o revisionismo e, sobre essa base de princípios, a construção de seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional em todos os países.

Seu “Congresso para uma Nova Esquerda Internacional” é convocado a partir de uma perspectiva que é explicitamente hostil a essa tarefa historicamente imperativa de construir uma liderança socialista e internacionalista genuinamente revolucionária na classe trabalhadora. Não temos intenção de emprestar o prestígio do Comitê Internacional da Quarta Internacional e do World Socialist Web Site a seus atos desprezíveis.

Bill Van Auken para o World Socialist Web Site