Índia e Paquistão caminham em direção a uma guerra catastrófica

9 Março 2019

Publicado originalmente em 2 de Março de 2019

A Índia e o Paquistão, países rivais do sul da Ásia que possuem armas nucleares, estão à beira de um conflito militar em grande escala. Na madrugada de terça-feira, aviões de guerra indianos atacaram o Paquistão pela primeira vez desde a guerra indo-paquistanesa de 1971. Em um ataque realizado a cerca de 80 km da linha de controle entre os dois países, os aviões indianos destruíram o que Nova Déli afirma ser a principal “base terrorista” do Jaish-e-Mohammed, um grupo islâmico envolvido na insurgência separatista da Caxemira indiana.

Após um breve período de confusão, enquanto avaliava os danos e as implicações estratégicas do ataque indiano, Islamabad prometeu uma forte resposta militar. O Paquistão declarou que não permitiria que a Índia “normalizasse” ataques ilegais ao estilo dos EUA e Israel dentro de seu território nacional, sejam eles retaliações ou bombardeios preventivos contra insurgentes na Caxemira.

No dia seguinte, aviões de guerra indianos e paquistaneses atacaram-se sobre o estado indiano de Jammu e Caxemira, depois que Islamabad lançou o que Nova Déli afirma ter sido um ataque mal sucedido contra instalações militares indianas. Ambos os lados alegam ter derrubado pelo menos um avião inimigo no combate de quarta-feira, com Islamabad apresentando um piloto indiano capturado como prova do que teria ocorrido.

Os EUA, a China, a Rússia e outras potências mundiais estão agora atuando publicamente para evitar o início de uma guerra total – uma guerra que eles admitem que poderia rapidamente transformar-se em um catastrófico conflito nuclear, mesmo que fosse “confinado” ao subcontinente indiano. No entanto, ao mesmo tempo que aconselham para que se contenham e oferecem mediação, as grandes potências – elas mesmas envolvidas em “uma nova era de competição estratégica”, segundo o próprio Pentágono – tentam usar a crise no sul da Ásia para levar adiante seus próprios interesses geoestratégicos.

Washington, em particular, usou o impasse para ampliar seus esforços em cercar diplomaticamente e militarmente a China. Caracterizou o ataque da Índia ao Paquistão como “autodefesa” e está utilizando a atual crise para enfatizar a força da “parceria estratégica global” entre EUA e Índia.

Somando-se à essa situação explosiva, estão as interconectadas crises socioeconômicas e políticas que atingem a Índia e o Paquistão, que são liderados, respectivamente, por Narendra Modi e seu partido supremacista hindu BJP e pelo populista islâmico Imran Khan.

Eleito o primeiro-ministro do Paquistão há apenas sete meses depois de prometer empregos, desenvolvimento e aumento dos gastos sociais, Khan viu sua popularidade cair à medida que seu governo implementa as medidas de austeridade exigidas pelo FMI. Modi e seu BJP estão descaradamente utilizando a crise em torno do ataque ao Paquistão para reunir votos para as eleições gerais de Abril e Maio deste ano. O BJP está acusando a oposição de pôr em perigo a “unidade nacional” por não parar de criticar o governo e por não proclamar amplamente as alegações de que Modi livrou-se das “restrições estratégicas” nas relações da Índia com o Paquistão.

Com o total apoio dos militares, da mídia corporativa e praticamente de toda a oposição, o governo Modi rejeitou a oferta de negociação vinda de Khan. Nova Déli insiste, como faz há anos, que não haverá “negociações de paz” entre a Índia e o Paquistão até que Islamabad ceda às exigências de Nova Déli, cortando todo o apoio logístico do Paquistão à insurgência da Caxemira.

Uma catástrofe nuclear em gestação?

Ninguém deve subestimar o perigo do que seria a primeira guerra entre estados que possuem armas nucleares. Desde a crise de 2001-2002, que viu um milhão de soldados indianos posicionados na fronteira com o Paquistão durante nove meses, ambos os países desenvolveram estratégias que permitiriam uma rápida escalada do conflito. Em resposta à doutrina “Cold Start” da Índia, baseada na rápida mobilização das forças indianas para uma invasão multilateral do Paquistão, Islamabad posicionou armas nucleares táticas ou de campo de batalha para um eventual conflito. A Índia, por sua vez, sinalizou que a utilização de armas nucleares táticas pelo Paquistão romperá seu “limite estratégico”, livrando a Índia do compromisso de não ser a primeira a usar armas nucleares, o que terá, portanto, uma retaliação nuclear “estratégica” como resposta.

Tudo isso aconteceria em uma área relativamente pequena e densamente povoada. O centro de Lahore, a segunda maior cidade do Paquistão e com mais de 11 milhões de habitantes, fica a pouco mais de 20 km da fronteira com a Índia. A distância entre Nova Déli e Islamabad é significativamente menor do que entre Berlim e Paris, ou Nova York e Detroit, e seria percorrida por um míssil nuclear em questão de minutos.

Um bombardeio nuclear mútuo entre a Índia e o Paquistão não só mataria dezenas de milhões de pessoas no sul da Ásia. Uma simulação de 2008 conduzida por cientistas que, na década de 1980, alertaram o mundo para a ameaça do “inverno nuclear”, concluiu que a detonação de cem armas nucleares como as de Hiroshima em uma guerra indo-paquistanesa destruiria grandes cidades e lançaria fumaça e cinzas na atmosfera a ponto de desencadear um colapso agrícola global. Isso, eles previram, faria com que um bilhão de pessoas morressem nos meses seguintes a essa “limitada” guerra nuclear no sul da Ásia.

Seja qual for o resultado imediato da mais recente ameaça de guerra – e os acontecimentos podem facilmente sair do controle nos próximos dias ou semanas –, ela é um exemplo do colapso da ordem geopolítica do pós-guerra e do resultante crescimento dos antagonismos imperialistas e da rivalidade entre estados. Esses antagonismos e rivalidades, por sua vez, estão inflamando todos os conflitos e problemas não resolvidos do século XX: um século em que o capitalismo sobreviveu ao desafio da revolução socialista mesmo depois de levar a humanidade a duas guerras mundiais, ao fascismo e a incontáveis outros horrores.

A partição e o fracasso histórico da burguesia nacional

O conflito indo-paquistanês está enraizado na divisão de 1947 do subcontinente indiano em dois estados, um Paquistão expressamente muçulmano e uma Índia predominantemente hindu – um crime perpetrado pelo colonialismo britânico que estava deixando o sul da Ásia e pelos representantes políticos das facções rivais da burguesia nativa, o Congresso Nacional Indiano e a Liga Muçulmana.

A partição desafiou a lógica histórica, cultural e econômica e desencadeou uma tempestade de violência comunal na qual dois milhões de pessoas foram mortas e outras 18 milhões fugiram da Índia para o Paquistão ou vice-versa. Isso serviu, entretanto, aos interesses cínicos das elites dominantes rivais da Índia e do Paquistão, que conseguiram dar um fim sangrento ao movimento anti-imperialista que convulsionou o sul da Ásia durante as três décadas precedentes, além de dar-lhes, como parte do acordo de divisão de independência com Londres, o controle da máquina estatal capitalista britânica-colonial com a qual enfrentariam a ameaça de uma classe trabalhadora cada vez mais combativa.

Incapazes de encontrar uma solução progressiva para os problemas das massas, a burguesia indiana e paquistanesa utilizou, durante as últimas sete décadas, sua rivalidade estratégica e seus apelos nacionalistas como um mecanismo para desviar a raiva social a direções reacionárias.

A ferida aberta representada hoje pela Caxemira é um testemunho da falência de ambas as burguesias nacionais. A burguesia indiana tem submetido a população de Jammu e Caxemira, o único estado de maioria muçulmana da Índia, a três décadas de ocupação militar, e teme a enorme e contínua insatisfação popular contra o domínio indiano, mesmo quando celebra um partido e um primeiro-ministro implicados em pogroms anti-mulçumanos.

Já corrupta elite dominante do Paquistão violou os direitos dos caxemires que governa e manipulou a oposição em Jammu e Caxemira de modo a alavancar os elementos islamistas mais reacionários.

Por um movimento liderado pela classe trabalhadora contra a guerra e o imperialismo

Nas últimas duas décadas, a natureza do conflito indo-paquistanês tem sido transformada. Esse conflito tornou-se cada vez mais atrelado ao confronto entre os EUA e a China, dando-lhe um novo e explosivo caráter e aumentando a ameaça do conflito indo-paquistanês envolver as grandes potências do mundo.

Desde o começo deste século, Washington, sob governos democrata e republicano, cortejou agressivamente a Índia e ofereceu-lhe favores estratégicos, como o acesso a combustível nuclear, tecnologia e armas estadunidenses, com o objetivo de subordinar Nova Déli a sua agenda estratégica.

A importância que os estrategistas de guerra dos EUA atribuem ao sul da Ásia e ao Oceano Índico – a via marítima do petróleo e outros recursos que abastecem a economia chinesa, bem como suas exportações para a Europa, África e Oriente Médio – foi expressa recentemente pela mudança de nome do Comando do Pacífico dos EUA para Comando Indo-Pacífico.

Sob o governo Modi, como ficou claro pela abertura das bases indianas aos aviões e navios estadunidenses e sua crescente cooperação estratégica bilateral, trilateral e quadrilateral com os EUA e seus principais aliados regionais (Japão e Austrália), a Índia foi transformada em um verdadeiro “estado de linha de frente” na ofensiva militar-estratégica dos EUA contra a China.

Islamabad, que durante a Guerra Fria foi o principal aliado de Washington no sul da Ásia, tem alertado em tons cada vez mais estridentes que as ações dos Estados Unidos destruíram o “equilíbrio de poder” na região e encorajaram a Índia, mas sem sucesso.

Consequentemente, o Paquistão fortaleceu dramaticamente sua antiga parceria estratégica-militar com a China, que igualmente teme a cada vez maior aliança entre a Índia e os EUA.

Embora os EUA estejam procurando esfriar as atuais tensões indo-paquistanesas, calculando que uma guerra no sul da Ásia poderia, neste momento, atrapalhar seus objetivos globais, ele continua com seu objetivo de conquistar a hegemonia mundial, que inclui a subjugação da China. Como parte dessa iniciativa, Washington deixou claro que está determinado a frustrar os esforços da China para tornar o Paquistão uma âncora de sua “Nova Rota da Seda”, e, em particular, coibir a intenção da China de investir no Corredor Econômico China-Paquistão, que neutralizaria o plano de Washington de atacar a economia chinesa ao bloquear rotas no Oceano Índico e “pontos de estrangulamento” no Mar do Sul da China.

Os trabalhadores da Índia e do Paquistão devem unir forças em oposição aos preparativos de mais uma guerra criminosa da elite dominante.

No sul da Ásia, como em todo o mundo, a luta contra a guerra é inseparável da luta contra o capitalismo, ou seja, contra as facções rivais capitalistas nacionais cuja luta voraz por mercados, lucros e vantagens estratégicas encontra expressão final na busca pela divisão do mundo e contra o ultrapassado e comunal – no caso do sul da Ásia – sistema de estados-nação, no qual o capitalismo é historicamente enraizado.

Em oposição ao programa de guerra, austeridade e reação comunalista da burguesia, os trabalhadores e a juventude socialistas no sul da Ásia devem lutar pela construção de um movimento liderado pela classe trabalhadora contra a guerra e o imperialismo, que faz parte de um movimento mundial contra a guerra.

Tal movimento só será construído na luta política contra os partidos parlamentares stalinistas na Índia, o Partido Comunista da Índia (Marxista) (PCM) e o Partido Comunista da Índia (PCI), e a miríade de grupos maoístas. O PCM e o PCI, como mais uma vez foi demonstrado na participação deles nas reuniões de crise de guerra do BJP com “todos os partidos”, são partidos chauvinistas e pró-militares que estão ajudando a cegar as massas para o perigo de uma guerra catastrófica. Por décadas, eles têm funcionado como parte integrante do establishmentpolítico indiano, ajudando a sustentar governos, muitos deles liderados pelo Congresso Nacional Indiano, que implementaram a reestruturação neoliberal, ajudaram a implementar a aliança entre a Índia e os EUA e expandiram rapidamente as ações militares da Índia em consonância com as ambições da burguesia. Os maoístas estão mergulhados no nacionalismo e são hostis à luta pela independência política da classe trabalhadora.

É no socialismo internacional de Lênin e Trotsky, representado hoje pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional, e no movimento para desfazer a partição do subcontinente indiano através da luta pela conquista do poder pelos trabalhadores e pela criação dos Estados Unidos Socialistas do Sul da Ásia que os trabalhadores da Índia e do Paquistão encontrarão a alternativa à guerra e à reação capitalista.

Keith Jones