O "socialismo em um só país" e os debates econômicos soviéticos da década de 1920

Por Nick Beams
19 Maio 2009

O camarada Nick Beams, secretário nacional do Partido da Igualdade Socialista (Socialist Equality Party—SEP) da Austrália e membro da Comissão Editorial Internacional do WSWS, ministrou duas palestras na escola de verão do SEP em Ann Arbor, Michigan, agosto de 2007. A palestra lida com alguns dos conflitos cruciais em torno da política econômica da União soviética durante os anos da década de 1920. Uma das motivações para as palestras era responder às distorções avançadas pelo acadêmico britânico Geoffrey Swain em seu livro Trotsky, publicado em 2006. Mais material pode ser encontrado em Leon Trotsky & the Post-Soviet School of Historical Falsification, por David North.

A análise contida em Towards Capitalism or Socialism, um dos frutos dos labores intelectuais de Trotsky produzidos enquanto trabalhou na Comissão de Concessões e outros projetos econômicos, é um dos mais focados e aprofundados sumários de sua perspectiva sobre o desenvolvimento da economia soviética. Suas idéias centrais são completamente distorcidas por Geoffrey Swain.

De acordo com Swain, “Trotsky nunca se opôs à idéia de ´socialismo em um só pais´ desde que a política econômica correta fosse seguida.” Ele estava portanto “feliz” em associar-se com a tarefa do socialismo nacional e seu ensaio [Towards Capitalism or Socialism] deixava “muito claro” que a União soviética estava “no caminho para o socialismo.” [1]

Swain aqui deliberadamente confunde duas questões distintas com o propósito de falsificar a posição de Trotsky. Trotsky sempre insistiu na possibilidade e necessidade da tomada de medidas para a construção socialista na União soviética—ao contrário da caricatura stalinista da teoria trotskista da Revolução Permanente, segundo a qual esta teoria afirmava que nada podia ser feito até que houvesse uma revolução no ocidente. A construção econômica era tanto possível quanto necessária, mas longe de construir o socialismo em um só país, esse mesmo processo criava maiores problemas e desafios.

Em seu prefácio de 1922 ao livro 1905, Trotsky descreveu sua posição numa passagem que seria citada repetidamente por seus oponentes: “As contradições na posição de um governo dos trabalhadores em um país atrasado, com uma população majoritariamente camponesa, serão resolvidas somente em um contexto internacional, na arena da revolução proletária mundial.”

As páginas de abertura de Towards Capitalism or Socialism expunham algumas dessas contradições conforme elas emergiam na esfera da economia. A construção do socialismo, Trotsky aponta, depende do crescimento das forças produtivas, um processo que envolve engajar o interesse pessoal dos próprios produtores na economia social.

No caso dos operários, um método era fazer seus salários dependerem da produtividade de seu trabalho. Mas o interesse pessoal do camponês vinha do fato de que ele funcionava como um indivíduo privado produzindo para o mercado. E aqui emergia a diferença crucial entre o operário e o camponês. Enquanto um sistema de salários diferenciados não criava diferenciação de classes—um trabalhador, mesmo que mais bem pago que outro, ainda é um trabalhador—o enriquecimento do campesinato criava.

Isto é, uma diferenciação de classes começava a se dar. Tal diferenciação não ocorre se a economia camponesa não cresce. Mas o crescimento da produção camponesa—acima de tudo o aumento do suprimento de grãos para as cidades—é vital para a expansão e desenvolvimento da indústria, sobre a qual o desenvolvimento da economia socialista depende. Por conta disso, a NEP foi um processo altamente contraditório. Havia uma luta dentro da NEP entre tendências capitalistas e socialistas. Era tanto uma competição quanto uma colaboração entre essas tendências. O único modo de contraposição ao processo inevitável de diferenciação de classes nas vilas era o desenvolvimento da indústria, provendo a base para uma forma produtiva superior que poderia sobrepor a produção camponesa individual—uma agricultura coletivizada que utilizasse de maquinaria industrial avançada.

A ala direita, com Zinoviev a encabeçando, insistia que o camponês poderia avançar para o socialismo através da edificação de cooperativas. Trotsky não negava a significância das cooperativas mas insistia que como forma de organização elas eram insuficientes. Para avançar na reconstrução socialista da agricultura era necessário industrializá-la.

A ocasião para Towards Capitalism or Socialismera a publicação em 1925-26 das estatísticas da economia por Gosplan. Trotsky tinha duas tarefas: refutar as afirmações dos oponentes social-democratas e mencheviques da revolução, de que os bolcheviques haviam arruinado a economia e que o capitalismo estava retornando; e trazer à tona os novos problemas que confrontavam a economia soviética conforme ela alcançava os níveis de capacidade produtiva industrial do ano de 1913 e embarcava em uma nova era, não somente de restauração, mas de nova construção.

Trotsky apontou que os números de Gosplan relativos ao controle estatal da economia possuíam uma significação histórica. Eram a “primeira, embora ainda imperfeita, planilha de balanço do primeiro capítulo do grande experimento de transformação da sociedade burguesa em sociedade socialista. E essa planilha de balanço é inteiramente favorável ao socialismo.” [3]

Nenhum país, ele continuou, havia sido tão arruinado e exaurido por uma série de guerras quanto a União soviética. Mas em contraste com os países capitalistas, que haviam se recuperado através da assistência estrangeira, a União soviética, o mais atrasado e exaurido, havia se recuperado com base apenas em seus próprios esforços, contra a oposição ativa de todo o mundo capitalista. A que se atribuiria o mérito desse desdobramento formidável?

“É devido à abolição completa do latifúndio feudal e da propriedade burguesa, é somente devido à nacionalização de todos os principais meios de produção, devido aos métodos estatais socialistas, e à mobilização e distribuição dos recursos necessários, que a União soviética se ergueu das cinzas e está agora trilhando forçosamente seu caminho na direção do sistema de economia mundial como um fator de crescente importância.” [4]

Para Trotsky, porém, a tarefa não era simplesmente observar as conquistas da economia soviética, mas plotar o percurso adiante pela identificação de novos problemas e perigos—resultantes dos próprios avanços da economia soviética—e apontar para os meios de superá-los.

A questão crucial, ele insistia, não era apenas a relação entre Estado e indústria privada dentro da União soviética—por mais decisivo que isso fosse—mas a “bem mais importante” questão da relação entre a economia soviética e a economia mundial como um todo. Conforme a economia soviética entrava no mercado global, não aumentavam apenas os prospectos, mas também os perigos.

Isto porque a superioridade fundamental dos Estados capitalistas estava no baixo preço de suas mercadorias—a expressão de mercado do fato de que tinham uma maior produtividade do trabalho. E era a produtividade do trabalho que determinaria, em última análise, se seria vitorioso o capitalismo ou o socialismo.

“O equilíbrio dinâmico da economia soviética não deveria de forma alguma ser considerado como o equilíbrio de uma unidade fechada e auto-suficiente,” ele escreveu. “Pelo contrário, conforme passar o tempo, nossa economia interna será mais e mais mantida pelas conquistas de nossas importações e exportações. Essa circunstância merece ser exposta em sua conclusão lógica, com todas as inferências esclarecidas. Quanto mais somos levados ao sistema da divisão internacional do trabalho, mais aberta e diretamente elementos de nossa economia doméstica como preço e qualidade de nossos produtos dependerão dos elementos correspondentes no mercado mundial.” [5]

Um novo medidor precisava ser encontrado para aferir o progresso da economia soviética. Até então, o medidor havia sido o grau em que a indústria, agricultura, transporte e outros setores da economia haviam retornado aos níveis de 1913, o último ano anterior à guerra. Com esses níveis atingidos ou quase, novos critérios se faziam necessários—coeficientes que pareassem a indústria soviética e o mercado mundial, comparando preços e quantidades. Dessa forma seria possível identificar fraquezas na economia e determinar um plano racional para importações e exportações. Isso tinha claras implicações também no setor de investimentos. Seria possível determinar as vantagens e desvantagens relativas de importar certas classes de maquinaria e equipamento ou manufaturá-las domesticamente. Claramente, nas áreas onde os coeficientes Soviéticos distavam bastante dos padrões mundiais, seria mais vantajoso importar, diferentemente dos casos onde os coeficientes se aproximavam da referência internacional.

Com a economia soviética alcançando ou se aproximando dos patamares produtivos do pré-guerra, a relação com o mercado mundial passou também por uma mudança. No período do Comunismo de Guerra, lembramos, Trotsky havia insistido na necessidade da Rússia soviética confiar em suas próprias capacidades de modo a evitar que os imperialistas garantissem acessos significativos na propriedade nacionalizada em troca de “uma libra de chá e uma lata de leite condensado.” Mas a recuperação da economia soviética impunha que novas oportunidades, assim como novos perigos, se abriam no horizonte.

Anteriormente o mercado mundial havia sido considerado do ponto de vista dos perigos econômicos associados a ele. Ninguém foi mais insistente que Trotsky no reconhecimento desses perigos, que precisavam ser combatidos com as medidas do “protecionismo socialista” corporificado no monopólio do comércio exterior. Mas o mercado capitalista mundial não continha somente grandes perigos. Também abria novas oportunidades para a economia soviética.

“Permite que garantamos mais e mais acesso às conquistas da tecnologia, às suas realizações mais complexas. Enquanto o mercado mundial, ao adicionar um sistema econômico socialista a suas outras unidades, conjura certos perigos para esse sistema socialista, também confere ao Estado socialista poderosos antídotos para esses perigos, assumido que o Estado regula corretamente seus intercursos econômicos. Se usarmos o mercado mundial para nossos próprios fins da maneira correta, seremos capazes de acelerar consideravelmente o processo de alteração dos coeficientes comparativos em favor do socialismo.” [6]

Contrastam com essa análise os pronunciamentos de Stalin no décimo-quarto congresso do Partido Comunista apenas quatro meses depois, em dezembro de 1925. De acordo com Stalin, se fazia necessário “conduzir nossa construção econômica de tal modo que ela converta a URSS de um país que importa máquinas e equipamento em um país que produz máquinas e equipamentos. ... Desse modo a URSS ... se tornará uma unidade econômica auto-suficiente que constrói o socialismo.” [7]

Em oposição a essa perspectiva nacionalista, Trotsky insistiu que era necessário ter consideração para o complexo sistema de interrelações, existente antes da guerra, entre a economia da Rússia capitalista e o mercado mundial. Quase dois terços do inventário das fábricas havia sido importado do exterior e essa condição permanecia virtualmente inalterada.

Isso implicava, Trotsky continuou, que não seria vantajoso produzir nada mais que talvez dois quintos ou no máximo metade das novas máquinas necessárias para o próximo período. Qualquer salto brusco na produção de nova maquinaria iria interferir adversamente nas relações entre os vários ramos da economia e retardar de forma generalizada a taxa de desenvolvimento econômico. Tal retardamento seria muito mais perigoso para a economia soviética do que a importação de máquinas estrangeiras ou commoditiesestrangeiras em geral. [8]

Retornemos ao argumento de Swain, que afirmava que Trotsky estava “perfeitamente feliz” quanto à concepção de que era possível construir o socialismo em um só país.

A importância das estatísticas de Gosplan, Trotsky insistiu, era que elas mostravam a predominância das tendências socialistas na economia em detrimento das tendências capitalistas com base no avanço geral das forças produtivas. Mas esse era apenas o ponto de partida.

“Se fosse nossa intenção (ou melhor, se fosse possível para nós) permanecermos um Estado economicamente isolado para sempre, poderíamos considerar essa questão resolvida em princípio. O perigo nos ameaçaria então apenas no campo político, ou no evento de uma penetração militar do nosso isolamento do mundo exterior. Mas agora que adentramos o campo da divisão universal do trabalho, economicamente falando, e nos tornamos assim objetos das leis que controlam o mercado mundial, a cooperação e disputa entre as tendências capitalista e socialista na economia adquirem proporções muito maiores, envolvendo maiores e maiores dificuldades.” [9]

E lá se vão as falsificações de Swain. Podemos apenas concordar com a conclusão tirada por Isaac Deutscher, de que Trotsky refutou os preceitos fundamentais da teoria de Stalin do socialismo em um só país mesmo antes dela ser imposta como política oficial.

Nós chegamos agora ao importantíssimo fundamento da análise de Trotsky, uma análise com implicações de grande alcance e repercussão não apenas para a luta histórica contra o stalinismo e sua doutrina de socialismo em um só país, mas para a luta contemporânea pelo socialismo internacional em que estamos engajados.

Essa é a concepção de Trotsky da significação objetiva da divisão internacional do trabalho. Aqui os argumentos que partem da esfera da economia são fundamentalmente baseados nas mesmas concepções que ele desenvolveu em sua análise da cultura, e na sua oposição à teoria da cultura proletária.

No artigo Culture and Socialism, publicado em 1927, Trotsky explica que a sociedade histórica se desenvolveu como uma organização para a exploração do homem pelo homem. Conseqüentemente, a cultura serviu à organização de classes da sociedade, e uma sociedade de exploradores deu sustentação a uma cultura de exploradores. Isso significa que somos contra toda a cultura do passado?

“Existe aqui, de fato, uma profunda contradição. Tudo o que foi conquistado, criado e construído pelos esforços do homem, tudo o que serve para aperfeiçoar o poder do homem, é cultura. Mas como que não é uma questão de homem individual mas de homem social, como a cultura é um fenômeno sócio-histórico em sua própria essência, e como a sociedade histórica foi e continua a ser a sociedade de classes, descobre-se a cultura como o instrumento básico da opressão de classe. Marx disse: ´As idéias dominantes de uma época são essencialmente as idéias da classe dominante daquela época.´ Isso também se aplica à cultura como um todo. E ainda assim dizemos para a classe trabalhadora: dominem toda a cultura do passado, ou vocês não construirão o socialismo. Como isso pode ser entendido?”

“Muitos esbarram nessa contradição, e esbarram nela tão frequentemente porque se aproximam da compreensão da sociedade de classes superficialmente, em parte idealisticamente, esquecendo que ela é fundamentalmente a organização da produção. Toda sociedade de classes foi formada sobre a base de modos definidos de luta com a natureza, e esses modos mudaram de acordo com o desenvolvimento da tecnologia. Qual é a base das bases—a organização de classes da sociedade ou suas forças produtivas? Sem dúvida alguma, as forças produtivas. É precisamente sobre elas, em um certo nível de seu desenvolvimento, que as classes são formadas e formadas novamente. Nas forças produtivas se expressa a habilidade econômica materializada da humanidade, nossa habilidade histórica de assegurar nossa existência. Desse fundamento dinâmico surgem classes, que pelas suas interrelações determinam o caráter da cultura.” [10]

Foi a partir desse amplo quadro histórico que Trotsky considerou o desenvolvimento da divisão internacional do trabalho, regulada pela operação do mercado mundial, e sua relação com a questão da construção socialista na União Soviética.

A divisão internacional do trabalho progrediu através da economia capitalista, mas foi por um mecanismo histórico e social que a produtividade do trabalho foi aumentada e as forças produtivas foram desenvolvidas.

Em outras palavras, ao considerar-se a divisão internacional do trabalho, surge claramente a mesma questão que se levantou da esfera cultural: qual é a base das bases, a organização de classes da sociedade ou o desenvolvimento das forças produtivas? Isto é, a divisão internacional do trabalho, através da qual as forças produtivas da humanidade foram desenvolvidas, era uma categoria social mais fundamental que a organização de classes da sociedade. Isso significava que o desenvolvimento de medidas socialistas na economia soviética precisava ser conduzido em sintonia com a divisão internacional do trabalho, e desse modo as medidas econômicas avançadas na União Soviética prefigurariam a economia socialista internacional.

Em um artigo publicado em primeiro de agosto de 1925, Trotsky explicou que, em última análise, os processos econômicos prevaleceriam sobre as barreiras políticas. “A divisão mundial do trabalho e as trocas que dela derivam não são abaladas pelo fato de que um sistema socialista prevalece em um país enquanto um sistema capitalista prevalece nos outros. ... O fato de que os trabalhadores e camponeses em nosso país sustentam o poder estatal e são donos de trustes e associações de modo algum chateia a divisão internacional do trabalho, que resulta [não da ideologia mas] das diferenças nas circunstâncias naturais e na história nacional.” [11]

Isso significava que a perspectiva stalinista, de manter a União Soviética economicamente isolada até que a revolução socialista tivesse se espalhado internacionalmente, era falsa até o núcleo. A possibilidade dos futuros Estados Unidos da Europa, e de fato o futuro da economia socialista mundial, não eram simplesmente uma questão de perspectiva política. Na verdade, a própria perspectiva política era uma expressão de processos econômicos objetivos. Estava, por assim dizer, alojada na própria divisão internacional do trabalho. O socialismo encontra justificação histórica na medida em que pode trazer o desenvolvimento das forças produtivas—um desenvolvimento que se dá com base na divisão internacional do trabalho.

Trotsky manifestou essas idéias em um número de ocasiões durante o período seguinte. Em 1927 ele escreveu: “Um crescimento devidamente regulado das exportações e importações com os países capitalistas prepara os elementos para a troca futura de bens e produtos [que irá prevalecer] quando o proletariado europeu assumir o poder e controlar a produção.” Também a construção do socialismo não se dava em estágios distintos separados por um “abismo.”

A mesma idéia se expressa de outra maneira na crítica do esquema de programa para o Sexto Congresso do Comintern em 1928. A perspectiva de Stalin e Bukharin de “socialismo em um só país” vislumbrava a economia socialista mundial como construção baseada em uma série de economias socialistas nacionais, “segundo o modo como as crianças erguem estruturas com blocos pré-fábricados.”

“Concretamente, a economia socialista mundial não será de modo algum uma soma de economias socialistas nacionais. Pode tomar forma em seu aspecto fundamental somente sobre o chão da divisão mundial do trabalho que foi criada por todo o período precedente de desenvolvimento do capitalismo. Em sua essência, será constituída e construída não segundo a edificação do ´socialismo total´ em um número de países individuais, mas através das tormentas e tempestades da revolução proletária mundial, que exigirá várias décadas. O sucesso econômico dos primeiros países da ditadura do proletariado será medido não pelo grau de aproximação com um ´socialismo total´ auto-suficiente, mas pela estabilidade política da ditadura em si e pelos sucessos conquistados em preparação dos elementos da futura economia socialista mundial.” [12]

As circunstâncias que circundam o início da batalha em torno do socialismo em um só país dentro do Partido Comunista forneceram material para conjecturas quanto aos motivos e ações de Trotsky naquele momento. No prefácio da edição russa de Revolução Permanente ele deixou claro que a batalha contra o socialismo em um só país envolvia todas as questões centrais da perspectiva revolucionária. A alternativa de revolução permanente ou socialismo em um só país, ele escreveu, “abarca ao mesmo tempo os problemas internos da União Soviética, os prospectos da revolução no oriente, e por fim, o destino da Internacional Comunista como um todo.” [13]

As conjecturas em torno das ações de Trotsky têm lugar porque no décimo-quarto congresso do partido, realizado em dezembro de 1925, quando o conflito primeiro surgiu, a batalha foi iniciada por Zinoviev e Kamenev, enquanto Trotsky se manteve em silêncio. O triunvirato de Zinoviev, Kamenev e Stalin, que havia se constituído para bloquear e eventualmente excluir Trotsky de seu papel dirigente, agora se despedaçava em função da mais fundamental questão de perspectiva. Ainda assim, a batalha inicial não envolveu Trotsky.

Comentando esses eventos, E.H. Carr escreveu: “A cisão do triunvirato no décimo-quarto congresso do partido deixou para trás um enigma desconcertante: a posição de Trotsky. A hostilidade contra Trotsky era o principal fundamento sobre o qual o triunvirato havia se apoiado.” No congresso, porém, a posição de Trotsky havia parecido ser a mais rígida, Carr continuou. “Apesar de ser um delegado no congresso, ele se sentou em desdém ao longo dos procedimentos, enquanto as duas novas facções se despedaçavam, sem se levantar para falar.” [14]

Deutscher, observando que o conflito entre os integrantes do triunvirato havia cozinhado por um ano, comentou: “Isso, poderia ter aparentado, era o realinhamento pelo qual Trotsky havia esperado, a oportunidade para agir. Ainda assim, por todo aquele período ele permaneceu distante, silencioso quanto aos problemas em torno dos quais o partido se dividia, como se alheio a eles.” [15]

Geoffrey Swain, porém, tem uma resposta pronta em mãos. Apesar de todas as frustrações trazidas pela “interferência” do Politburo na tomada de decisões econômicas, se fazia progresso “e ele estava preparado para trabalhar com Stalin para que [o progresso] fosse até o fim.” [16]

E por que entraria em conflito, dado que, de acordo com Swain, ele concordava com Stalin que o socialismo poderia ser construído em um só país, bastando que as políticas corretas fossem implementadas?

O silêncio de Trotsky e sua aparente passividade diante da cisão do triunvirato é apenas um “mistério” se for considerado do ponto de vista de uma luta pelo poder político. Desse ponto de vista pareceria óbvio iniciar um curso de ação pensado para tomar a maior vantagem possível de uma cisão nas fileiras dos oponentes. Mas ao ser visto da perspectiva correta, isto é, do ponto de vista dos problemas de programa e perspectiva com os quais Trotsky estava preocupado, o significado dos eventos que circundam o décimo-quarto congresso pode ser prontamente assimilado.

A doutrina do socialismo em um só país tinha suas origens num artigo publicado por Stalin em dezembro de 1924, dirigido contra a teoria de Trotsky da revolução permanente e publicado sob o título “A Revolução de Outubro e as Táticas dos Comunistas Russos.”

“De acordo com Lenin,” Stalin escreveu, “a revolução retira suas forças acima de tudo dos trabalhadores e camponeses da própria Rússia. De acordo com Trotsky as forças indispensáveis podem ser encontradas somente ´na arena de uma revolução mundial do proletariado´. E se a revolução mundial está destinada a ser tardia? Haverá uma faísca de esperança para nossa revolução? O camarada Trotsky não nos dá qualquer esperança ... De acordo com esse plano, nossa revolução tem apenas um prospecto: o de vegetar em suas próprias contradições e ter suas raízes apodrecidas enquanto espera pela revolução mundial.” [17]

Apenas 10 meses antes, em seu Fundamentos do Leninismo, Stalin resumiu as posições de Lenin da seguinte maneira: “A tomada do poder da burguesia e o estabelecimento de um governo proletário em um país não garante ainda a vitória completa do socialismo. A principal tarefa do socialismo—a organização da produção socialista—ainda está adiante. Pode essa tarefa ser realizada, pode a vitória final do socialismo em um só país ser obtida, sem os esforços conjuntos do proletariado de diversos países avançados? Não, isso é impossível. Para derrubar a burguesia os esforços de um país são suficientes—a história de nossa revolução testemunha em favor disso. Para a vitória final do Socialismo, para a organização da produção socialista, os esforços de um país, particularmente de um país campesino como a Rússia, são insuficientes. Para isso os esforços dos proletários de diversos países avançados são necessários. Esses, de um modo geral, são os traços característicos da teoria Leninista da revolução proletária.”

Porém, ao final do ano o livro foi reeditado com a afirmação de que o “proletariado pode e precisa construir a sociedade socialista em um só país,” seguida pela asserção de que isso constituía a “teoria Leninista da revolução proletária.”

A significação da nova doutrina, porém, não foi imediatamente aparente. E.H. Carr observou que ela não estava presente na resolução esboçada por Zinoviev condenando Trotsky, em janeiro de 1925. Stalin não mencionou-a em seu discurso naquela ocasião, e ninguém pensou em invocá-la nas disputas em torno da política agrária que ocorreram no inverno de 1924-25. “Sua aparição original no artigo de dezembro de 1924 foi seguida por um silêncio de três meses, durante o qual a teoria do socialismo em um só país parece ter sido ignorada por líderes do partido e publicistas, incluindo seu autor.” [18]

Foi Bukharin que assumiu e desenvolveu a doutrina, argumentando na primavera de 1925 que a contraparte do reconhecimento da estabilização do capitalismo precisava ser o reconhecimento da possibilidade de construção do socialismo em um só país. A estabilização do capitalismo no ocidente, ele sustentava, “em certo grau influencia a maneira como consideramos a questão de nossa posição econômica interna.” Se é admitido que o capitalismo na Europa ocidental está se recuperando, ele continuou, “não procede que isso implica no fim de nossa esperança de construir o socialismo? Em outras palavras, podemos ter sucesso sem a ajuda direta de um proletariado europeu vitorioso? Isso se reduz a uma questão da possibilidade de construção do socialismo em um só país.” Era possível construir o socialismo pois os recursos seriam obtidos através de uma aplicação mais vigorosa do trabalho. [19]

À época do décimo-quarto congresso em dezembro de 1925 a utilidade política da nova doutrina como uma arma para derrotar a oposição se tornava cada vez mais aparente. O socialismo em um só país se tornaria a doutrina nacionalista da burocracia em ascensão conforme ela consolidava sua posição na batalha contra o programa e a perspectiva do internacionalismo socialista e o marxismo.

Quando o conflito entre os membros do triunvirato explodiu no chão do décimo-quarto congresso, Trotsky foi surpreendido. Como depois disse à Comissão Dewey: “A expectativa de um conflito entre Stalin, Zinoviev e Kamenev era insuspeita no Congresso. Durante o Congresso eu esperei incerto, porque toda a situação mudou. Era absolutamente obscuro para mim.” [20]

Havendo sido tomado de surpresa, ele buscou se orientar sobre o significado do conflito e as tendências que as facções opostas representavam. Em 14 de dezembro, fez uma nota que delineava o método pelo qual procederia.

“Nem classes nem partidos,” escreveu, “podem ser julgados pelo que podem dizer sobre si mesmos, ou pelos slogans que levantam em qualquer dado momento. Isso se aplica totalmente aos agrupamentos de um partido político também. Slogans devem ser tomados não em isolamento, mas em relação aos seus entornos, e especialmente em relação com a história de um agrupamento em particular, suas tradições, a seleção de material humano dentro do agrupamento, etc.” [21]

No caso do agrupamento Zinoviev-Kamenev não estava de modo algum claro qual era o significado da oposição ao bloco Stalin-Bukharin. Em primeiro lugar, Zinoviev havia estado na linha de frente das denúncias contra Trotsky, que segundo ele, subestimava o campesinato. O conflito, que havia emergido às vésperas do congresso, entre a organização de Leningrado, encabeçada por Zinoviev, e o comitê central indubitavelmente tinha suas raízes sociais nas relações entre o proletariado e o campesinato, Trosky apontou.

Mas nenhuma proposta específica havia sido avançada ou qualquer plataforma estabelecida clarificando os princípios básicos elaborados. Além disso, havia uma “extraordinária dificuldade” em descrever a natureza precisa das tendências de classe em movimento nas diferentes facções por causa do “papel absolutamente sem precedentes” do aparato do partido. Isso havia levado a uma situação onde a organização de Leningrado dirigia uma resolução, virtualmente unânime, contra o comitê central, enquanto a organização de Moscou—sem sequer uma única abstenção—adotava uma resolução contra Leningrado.

Trotsky não podia interpretar superficialmente a recém-encontrada oposição de Zinoviev a Stalin e sua doutrina de socialismo em um só país. Afinal de contas, não estava claro qual era a real posição de Zinoviev. Em abril de 1925 ele havia dito a conferência do partido que Lenin acreditava que a “vitória total” do socialismo era possível em “país como o nosso,” mas que enquanto um revolucionário internacional, Lenin “jamais deixou de frisar o fato de que sem uma revolução internacional nossa vitória é instável e incompleta.” Assim, de acordo com a lógica torta de Zinoviev, uma “total” mas “incompleta” e “instável” vitória do socialismo era possível em um só país.

A composição da nova oposição era outra complicação. Sokolnikov, um dos líderes dos advogados da “ortodoxia financeira,” estava entre os líderes da oposição em Leningrado. Sua oposição ao “socialismo em um só país” viria da direita e não da esquerda. Antes ele havia sido o advogado do enfraquecimento do monopólio do comércio exterior—caracterizado por Trotsky como “protecionismo socialista”—em nome do controle mais apertado das finanças governamentais. “Ele era e continua a ser,” Trotsky escreveu, “o teórico do desarmamento econômico do proletariado em relação ao campo.” Na ausência de qualquer perspectiva clara, bem elaborada por parte de Zinoviev, o programa de Sokolnikov teria se tornado a plataforma da nova oposição.

Esse perigo era reforçado pelo fato de que “Kamenev, Zinoviev e outros ainda consideram a indústria uma parte componente do capitalismo de Estado.” Em 1921, no início da NEP, Trotsky observou, Lenin caracterizou o regime econômico geral como capitalismo de Estado. Mas isso foi em uma época em que a indústria estava num estado de paralisia e em que era antecipado que o desenvolvimento econômico prosseguiria pela via das companhias mistas, algumas delas atraindo investimentos estrangeiros. De fato, isso não ocorreu. O desenvolvimento ocorreu de maneira mais favorável e a indústria estatal acabou na posição decisiva enquanto as companhias mistas e concessões tomaram uma parcela insignificante do mercado. Os líderes da nova oposição, porém, continuaram a usar o termo.

“Eles sustentavam esse ponto de vista em comum dois ou três anos atrás, e o avançaram de uma maneira especialmente persistente durante a discussão de 1923-24,” Trotsky escreveu. “A essência desse ponto de vista é que a indústria é uma das partes subordinadas de um sistema que inclui a economia campesina, finanças, cooperativas, empresas privadas reguladas pelo Estado, etc. Todos esses processos econômicos, regulados e controlados pelo Estado, constituem o sistema do capitalismo de Estado, que supostamente levará ao socialismo através de uma série de estágios. Nesse esquema, o papel protagonístico da indústria desaparece completamente. O princípio do planejamento é quase que inteiramente posto de lado em função da regulação de créditos e finanças [o programa de Sokolnikov], que assumiu o papel de um intermediário entre a economia campesina e a indústria estatal, considerando-as duas partes em um processo judiciário.” [22]

A essência da questão está no desenvolvimento da indústria. Apenas desse modo mudanças fundamentais poderiam ser feitas no campo. A regulação do crédito e finanças não incluía qualquer princípio de planejamento e não poderia conter qualquer garantia de um avanço em direção ao socialismo.

Havia um outro aspecto na necessidade do planejamento e da industrialização—o regime dentro do partido. Trotsky não considerou, diferentemente de Zinoviev, que o problema central era Stalin enquanto um indivíduo. Stalin e o regime burocrático que ele liderava, com base no aparato do partido, eram, em última análise, uma expressão do atraso econômico e cultural da União Soviética e da posição empobrecida da classe trabalhadora. Assim o burocratismo poderia ser superado somente através de um programa de desenvolvimento econômico e cultural, do qual o planejamento e a industrialização eram os componentes-chave.

Apesar de suas preocupações sobre as perspectivas da liderança em Leningrado e a natureza do regime que dirigiam, Trotsky concluiu que o surgimento dessa oposição de fato representava, de uma maneira distorcida, a crescente oposição da classe trabalhadora contra as contínuas concessões ao campesinato e os retrocessos impostos pela liderança central, e que parte da hostilidade a Leningrado refletia a oposição do campo contra a cidade.

Foram considerações desse tipo que levaram Trotsky a formar uma oposição conjunta com Kamenev e Zinoviev. Nas sessões de plenária do Comitê Central em abril de 1926 Trotsky propôs um plano de cinco anos com o objetivo de superar o baixo suprimento de bens industriais até 1931, incluindo impostos agrícolas mais progressivos e alocação de capital maior para a indústria. No mesmo encontro Kamenev avançou a noção de que a indústria estava agora atrasada em relação ao campo e que essa deficiência precisava ser superada. Essa convergência de opinião levou à formação da Oposição Unificada.

Nos 18 meses seguintes Trotsky engajaria numa luta política tão intensa que em comparação seus conflitos contra os membros do triunvirato eram “pequenos embates.” Deutscher captura o escopo da batalha: “Incansável, implacável, esticando cada nervo, pondo em marcha poderes inigualáveis de argumentação e persuasão, passando por uma gama excepcionalmente ampla de idéias e políticas, e enfim apoiado por uma larga seção, provavelmente a maioria, da Velha Guarda que até o momento o havia desprezado, ele fez um esforço prodigioso para acordar o partido bolchevique e influenciar ainda mais o curso da revolução. Como um lutador ele pode aparecer para a posteridade não menor nos anos de 1926-27 do que era em 1917—talvez maior.” [23]

Notas:

1. Geoffrey Swain, Trotsky, Longman, 2006, p. 159.

2. Leon Trotsky, 1905, Penguin, 1973, p. 8.

3. Leon Trotsky Towards Capitalism or Socialism, in: Leon Trotsky, The Challenge of the Left Opposition 1923-25, Pathfinder Press, 1980, p. 343.

4. Towards Capitalism or Socialism, p. 343.

5. Towards Capitalism or Socialism, p. 347.

6. Towards Capitalism or Socialism, p. 358.

7. Richard Day, Leon Trotsky and the Politics of Economic Isolation, Cambridge University Press, 2004, pp. 120-21.

8. Towards Capitalism or Socialism, p. 359.

9. Towards Capitalism or Socialism, p. 369.

10. Leon Trotsky, Culture and Socialism, in: Problems of Everyday Life, Pathfinder Press, 1973, p. 228.

11. Day p. 130.

12. Leon Trotsky, The Third International After Lenin, New Park, 1974, pp. 42-43.

13. Leon Trotsky, The Permanent Revolution, New Park, 1975, p. 11.

14. E.H. Carr, Socialism in One Country, Volume 2, Penguin, 1970, pp. ?182-83.

15. Isaac Deutscher, Trotsky, Volume 2, Oxford University Press, 1970 p. 248.

16. Swain, p. 163.

17. Robert Daniels, The Conscience of the Revolution, Harvard University Press, 1965, p. 251.

18. Carr, p. 43.

19. Day, p. 103.

20. The Case of Leon Trotsky, Merit, New York, 1969, p. 322-23.

21. Trotsky, Challenge of the Left Opposition 1923-25, p. 390.

22. Trotsky, Challenge of the Left Opposition 1923-25, p. 391.

23. Deutscher, Trotsky, vol. 2, p. 271.