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A conspiração para censurar a internet

Andre Damon e Joseph Kishore
7 de dezembro de 2017

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Publicado originalmente em 18 de Outubro de 2017

Os representantes políticos da classe dominante estadunidense estão empenhados em uma conspiração para atacar a liberdade de expressão. Sob o pretexto de combater as difamações e as notícias falsas, supostamente controladas pela Rússia, os direitos constitucionais mais fundamentais da Primeira Emenda à Constituição dos EUA estão sendo atacados.

A força política que lidera esta campanha é o Partido Democrata, em colaboração com frações do Partido Republicano, a mídia de massa e o aparato de inteligência militar.

A administração Trump ameaça uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte, promove ataques cada vez maiores ao sistema de saúde, exige novos cortes de impostos aos ricos, deflagra guerra aos trabalhadores imigrantes e esvazia as regulamentações de empresas e ambientais. Entretanto, esta agenda reacionária não é o foco do Partido Democrata, que se dedica, ao invés disso, a fazer reivindicações cada vez mais histéricas de que a Rússia está “provocando divisões” no interior dos Estados Unidos.

Na mídia, sucessivas reportagens são publicadas, uma mais absurda que a outra. A alegação de que a Rússia manipulou as eleições estadunidenses por meio de US$100.000 em publicidade no Facebook e Twitter foi sucedida por outras frágeis reportagens a respeito da manipulação pelo governo Putin de outros meios de comunicação.

Uma reportagem “exclusiva” da CNN, na semana passada, declarou que a organização “Don´t Shoot Us”, que a reportagem alega, sem evidências, que estaria ligada à Rússia, buscou “promover tensão racial e disseminar discórdia” no Instagram, Twitter, YouTube, Tumblr e até no Pokémon Go, um jogo de realidade virtual para aparelhos celulares.

Outra reportagem da CNN, na segunda-feira, informou que uma “fábrica de calúnias e difamações” russa estava envolvida em postagens de comentários críticos à Hillary Clinton, como “parte da campanha do presidente Vladimir Putin para influenciar as eleições de 2016”. Todos os comentários negativos na mídia noticiosa e outras publicações direcionadas à Clinton, dava a entender a reportagem, eram produtos de agentes russos ou de pessoas ludibriadas por agentes russos.

Assim como no período do Macartismo na Guerra Fria, o absurdo das acusações não é contestado. Elas são tomadas e repetidas por outros meios de comunicação e por políticos para demonstrar quão amplas as ações do perverso “inimigo estrangeiro” realmente são.

Se um objetivo tem sido continuar e ampliar a política externa anti-Rússia, a intenção principal torna-se cada vez mais evidente: criminalizar a divergência política nos Estados Unidos.

A expressão mais direta desta conspiração contra a liberdade de expressão foi publicada segunda-feira em uma coluna do Washington Post intitulada “Se a Rússia consegue criar perfis falsos do ‘Black Lives Matter’, quem mais fará?”, da ideóloga anticomunista Anne Applebaum.

A resposta dela foi: o povo americano. “Eu consigo imaginar múltiplos grupos, muitos deles americanos orgulhosos, que podem querer manipular um espectro de contas falsas durante um tumulto ou desastre para aumentar a ansiedade ou medo”, ela escreve. Applebaum alerta que “grupos políticos – de direita, de esquerda, quaisquer que sejam –irão entender rapidamente” como usar redes sociais para disseminar “desinformação” e “desmoralização”.

Applebaum investe contra todos aqueles que buscam anonimato na internet. “Estamos no melhor momento de todos contra o anonimato, ao menos contra o anonimato em fóruns públicos das redes sociais e seções de comentários”, ela escreve. Ela continua: “O direito à liberdade de expressão é algo que está concedido a humanos, não a códigos de computador”. Entretanto, o alvo dela não são “robôs” operando “perfis falsos”, mas qualquer um que, temendo repressão do Estado ou punição injusta pelo seu empregador, queira fazer um depoimento online anônimo. Trata-se apenas de uma amostra do que será o caminho para silenciar a dissidência política.

Applebaum está intimamente ligada ao alto escalão do Estado capitalista. Ela é membro de think tanks estratégicos ligados à política externa e compõe a junta de diretores da “National Endowment for Democracy” - o “Fundo Nacional para a Democracia” -, fundação ligada à CIA. Casada com o ex-ministro das relações exteriores da Polônia, ela é uma feroz “falcoa de guerra”. Depois da anexação russa da Criméia, ela escreveu uma coluna no Washington Post na qual pediu por uma “guerra total” contra a Rússia, uma potência nuclear. Ela representa a conexão entre o militarismo e a repressão política.

As implicações dos argumentos de Applebaum foram evidenciadas em um artigo extraordinário publicado na primeira página do New York Times de terça-feira, intitulado “Enquanto os Estados Unidos enfrentam a desordem da internet, a China sai fortalecida”, a qual vê favoravelmente a censura agressiva da Internet pela China e dá a entender que os Estados Unidos estão se direcionando para um regime exatamente como aquele.

“Há anos, os Estados Unidos e outros viam” a “forte censura chinesa como um sinal de vulnerabilidade política e uma barreira ao seu desenvolvimento econômico”, o Times escreve. “Entretanto, enquanto países do Ocidente discutem possíveis restrições à Internet e se desesperam por conta de notícias falsas, invasões de rede e intromissão estrangeira, há chineses que enxergam uma justificação da atuação do seu país na internet.”

O artigo ainda afirma que, enquanto “poucos argumentariam que o controle chinês da internet serve como modelo para as sociedades democráticas... Ao mesmo tempo, a China antecipou muitas questões que agora confundem os governos desde os Estados Unidos e a Alemanha até a Indonésia”.

Applebaum omite qualquer referência aos direitos democráticos, à liberdade de expressão ou à Primeira Emenda à Constituição dos EUA do seu artigo no Times, que exige uma repressão sem limites às redes sociais.

A Primeira Emenda, que estabelece que “o Congresso não legislará… de modo a reduzir a liberdade de expressão”, é a emenda mais ampla da Constituição estadunidense. Ao contrário do que diz Applebaum, não há qualquer ressalva que isente o discurso anônimo da proteção constitucional. É um fato histórico que líderes da Revolução Americana e redatores da Constituição escreveram artigos utilizando-se de pseudônimos para impedir a repressão das autoridades britânicas.

A Constituição não dá ao governo nem às grandes empresas o direito de decidir o que é “falso” e o que não é, ou o que uma “teoria da conspiração” e o que “tem respaldo”. O mesmo argumento que está sendo adotado agora para reprimir as redes sociais poderia ter sido aplicado outrora para censurar livros e jornais de circulação massiva, que surgiram com o advento da imprensa.

O movimento de censura à internet nos Estados Unidos já está muito avançado. Desde que o Google anunciou o plano para omitir as “sugestões alternativas” dos resultados de buscas no início deste ano, sítios eletrônicos de liderança na esquerda tiveram queda de mais de 50% no tráfego de busca. O tráfego de busca no Google do WSWS caiu 75%.

O Facebook, Twitter e outras plataformas da rede social adotaram medidas semelhantes. A campanha que está sendo promovida em relação à atividade online russa será usada para justificar medidas de alcances ainda maiores.

Isso está acontecendo nas universidades que adotam medidas para dar à polícia a autoridade de vetar eventos nos campi. Há esforços em andamento para abolir a “neutralidade de rede” com o fim de oferecer às grandes empresas a capacidade de controlar o tráfego da internet. As agências de inteligência têm exigido a capacidade de contornar a criptografia de dados após terem sido expostas por atividades ilegais de monitoramento da comunicação por telefones e atividades na internet de toda a população.

Os governos de países “democráticos”, um após o outro, estão se voltando a formas de Estado policial. Da França, onde há permanente estado de emergência, à Alemanha, que no mês passado fechou uma subsidiária do sítio eletrônico de esquerda Indymedia, até a Espanha, com sua repressão violenta sobre o referendo separatista catalão e a prisão dos líderes separatistas.

A destruição dos direitos democráticos é uma resposta política da aristocracia financeira e empresarial diante do crescente descontentamento da classe trabalhadora, ligada aos recordes dos índices de desigualdade social e intimamente relacionada a uma preparação para uma grande escalada de violência imperialista ao redor do mundo. A maior preocupação da elite dominante é a emergência de um movimento independente da classe trabalhadora, e o Estado está atuando para evitar que isso aconteça.