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O acordo entre Cerberus e Chrysler: pela transformação da indústria automobilística em propriedade pública

Declaração do comitê editorial do World Socialist Web Site
4 de junio de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 30 de maio de 2007.

Após a venda da Chrysler Corporation à empresa de investimentos privados Cerberus Capital Management, o poder financeiro de Wall Street tem agido no sentido de pressionar por uma reestruturação e uma retração radical da indústria automobilística norte-americana. A primeira compra de uma grande produtora de automóveis por uma empresa de investimentos privados ameaça os empregos e as condições de vida dos 80.000 trabalhadores da Chrysler nos EUA e no Canadá e cria um precedente para intensos ataques a todos os trabalhadores desse setor.

O controle assumido pela Cerberus marca uma nova fase na década de assaltos aos empregos e condições de vida dos trabalhadores da indústria e do setor automobilístico como um todo. Ele representa não apenas o produto da mesquinhez dos executivos e especuladores das empresas, mas da crise e da falência do próprio sistema capitalista. As condições de vida da classe trabalhadora em todo mundo vem sendo sacrificada de maneira brutal, a fim de manter um sistema parasita e socialmente destrutivo, que subordina todas as necessidades sociais ao enriquecimento da elite financeira.

O caráter global do ataque aos trabalhadores do setor automobilístico demonstra que é a expressão de uma crise sistêmica na indústria automobilística e no sistema de lucros como um todo. Fábricas de automóveis estão sendo fechadas, empregos destruídos e salários reduzidos na Alemanha, França, Espanha, Brasil e outros países, enquanto se transfere a produção para paraísos da mão de obra barata ao redor do mundo.

Comumente chamada de “fundo abutre”, a Cerberus tem um recorde em compras de companhias com problemas financeiros, incluindo empresas de linhas aéreas, tecelagens, empresas de telecomunicações, cadeias de supermercados e fabricantes de auto-peças, cortando drasticamente os custos trabalhistas e revendendo depois toda a empresa ou parte dela, obtendo assim um enorme lucro. Empresas de investimento privado já passam a observar a General Motors e a Ford, considerando a Chrysler como um teste para uma nova onda de fechamentos de fábricas combinada com cortes de salários sem precedentes e com a restrição dos benefícios de assistência médica e pensão para os trabalhadores aposentados e suas famílias.

Apenas alguns dias depois da compra da Chrysler pela Cerberus ter sido anunciada, o diretor executivo da Chrysler, Tom LaSorda, afirmou que a nova Chrysler Holding Company iria cortar US$ 300 milhões de benefícios médicos a aposentados, impondo novos gastos aos aposentados e seus dependentes pela primeira vez em quarenta anos.

O propósito desse corte de custos é o de impulsionar a taxa de lucro dos grandes investidores que consideraram por muito tempo a indústria automobilística como um investimento pouco atrativo. Atualmente, a indústria automobilística mundial oferece um lucro médio de 5% aos investidores, sendo que muitas das companhias, especialmente as fabricantes dos EUA, apresentam prejuízos. A Cerberus possui uma taxa de lucro média de 22%. É impossível obter tal lucro através de procedimentos normais de produção e venda de carros. Isso só pode ser alcançado enxugando a companhia e levando a taxa de exploração dos trabalhadores a níveis nunca vistos desde 1920.

Um possível cenário foi exposto pela revista Newsweek do dia 17 de maio, onde se afirmava: “ao invés de cada fabricante de Detroit fazer todo o tipo de carro e caminhão — e ter prejuízo com a maioria deles — eles poderiam passar a ser empresas de projeto e representarem uma marca que atua somente naquilo que lhes dá dinheiro... Por que não focar no projeto, na promoção e na venda de um carro ao invés de produzi-lo? Isso seria uma heresia na Cidade dos Motores, mas é um lugar comum nas outras indústrias”.

Tal plano exigiria o fechamento da maioria daquilo que ainda resta da indústria automobilística dos EUA e a venda da produção a companhias que pagam baixos salários e companhias terceirizadas nos EUA e em todo o mundo.

O colapso eminente das companhias automobilísticas dos EUA expressa de forma clara o caráter anárquico e irracional do sistema capitalista. A crescente globalização da produção, acompanhada de grandes avanços na tecnologia e na ciência, aumentou ainda mais as contradições fundamentais do sistema: entre a economia mundial e o sistema de Estados Nacionais ao qual o capitalismo está preso e entre a produção social e a propriedade privada dos meios de produção.

Enquanto aumentou o nível tecnológico em diversos novos países fabricantes de automóveis, tais como China, Índia e Brasil, as fábricas tradicionais da América do Norte, Europa Ocidental e Japão — onde são vendidos 70% de todos os veículos do mundo — já estão saturadas. A maioria dos habitantes do resto do mundo — onde residem seis de cada sete pessoas — é pobre demais para comprar um carro.

Analistas da indústria automobilística e investidores de Wall Street estão exigindo uma drástica redução da capacidade de produção mundial de automóveis, na ordem de um terço da atual produção anual de 66 milhões de veículos. Mesmo que toda a indústria automobilística da América do Norte deixasse de existir, a indústria mundial ainda poderia, na opinião destes analistas, apresentar um “excesso de capacidade” produtiva.

A traição dos sindicatos do setor automobilístico

O apoio dado pelos sindicatos UAW e CAW à compra da Chrysler é uma traição histórica à classe trabalhadora. Logo depois que a DaimlerChrysler anunciou oficialmente a venda da Chrysler numa entrevista coletiva concedida à imprensa no dia 14 de maio, o UAW endossou o acordo, dizendo que ele atendia “aos melhores interesses dos associados do UAW, do grupo Chrysler e da Daimler”.

Tudo indica que os novos proprietários tenham assegurado aos dirigentes do UAW que seus bônus e privilégios seriam protegidos e mesmo aumentados. O Wall Street Journal divulgou no dia 15 de maio que a Chrysler e as outras três grandes fabricantes estão planejando dar o controle dos multibilionários fundos de assistência médica dos aposentados aos sindicatos, tornando assim o UAW “uma das maiores empresas privadas de assistência médica nos EUA”. Tal acordo poderia transferir enormes lucros aos burocratas do sindicato, enquanto dá às companhias uma chance de se livrar das suas responsabilidades, deixando que o sindicato corte a cobertura médica de 1 milhão de aposentados e seus dependentes.

Para se opor a esses ataques, os trabalhadores norte-americanos devem levar em consideração o fundamento tanto dos ataques das companhias quanto das traições do sindicato. É necessário organizar ações — de maneira independente do UAW e do CAW — como greves, manifestações de massa e outras formas de solidariedade de todos os setores da classe trabalhadora, tanto nos EUA como em todo o mundo. Mas tal ação não pode ter sucesso se não estiver ligada a uma nova estratégia política — baseada na falência do sistema de lucros e na necessidade de se construir um movimento de massas da classe trabalhadora com conteúdo socialista, em oposição a todos os partidos do grande capital. Nos EUA, isso significa um claro e irrevogável rompimento com o Partido Democrata.

Lições de uma história de luta

A transformação do UAW num braço da administração da companhia, com ambições de se tornar uma empresa abertamente capitalista, é a prova histórica de que os trabalhadores não podem defender seus interesses por meio de organizações que aceitam o sistema de lucros.

Embora os trabalhadores socialistas e de esquerda tenham, na década de 1930, desempenhado um papel fundamental no movimento de massas que criou os sindicatos industriais, incluindo o UAW, já naquela época, os líderes do Congresso das Organizações Industriais (CIO) defenderam explicitamente o sistema capitalista e excluíram qualquer exigência de longo alcance que colocasse em xeque os direitos de propriedade e o monopólio dos proprietários capitalistas. A defesa política do sistema de lucros foi posta em prática por meio da oposição da burocracia sindical à criação de um partido independente de trabalhadores e seu apoio à aliança com o Partido Democrata.

Depois da II Guerra Mundial, o presidente, Walter Reuther, dirigiu o movimento anti-comunista de caça às bruxas para acabar com a influência socialista dos sindicatos. A marginalização dos socialistas minou fatalmente os sindicatos, ainda que suas completas implicações tenham sido mascaradas, durante certo tempo, pelas condições temporárias e extraordinárias do boom econômico do pós-guerra.

A subordinação ao Partido Democrata foi defendida por meio da ficção de que seria possível conciliar os interesses da classe trabalhadora com os da elite capitalista. O UAW estabeleceu um acordo traidor com os monopólios dos automóveis: em troca da garantia de disciplina dos trabalhadores pelo sindicato e da exclusão de qualquer oposição às prerrogativas básicas da administração da companhia, seria oferecido aos trabalhadores salários crescentes, garantia de emprego por longo período, além de outros benefícios. Em essência, Reuther amarrou o futuro da classe trabalhadora à esperança de que o capitalismo norte-americano e as companhias automobilísticas instaladas nos EUA poderiam manter uma posição hegemônica nos mercados mundiais para sempre.

Em meados da década de 1970 o boom do pós-guerra estava chegando ao fim e crescia uma nova crise mundial, centrada no declínio da posição econômica mundial dos EUA. A resposta da elite política e empresarial dos EUA à crescente concorrência japonesa e européia foi a de realizar uma ofensiva contra a classe trabalhadora.

O salvamento da Chrysler

O salvamento da Chrysler em 1979-1980 foi um dos momentos críticos. Os patrões e o governo democrata de Jimmy Carter utilizaram a ameaça do fechamento da companhia para arrancar enormes concessões dos trabalhadores. O UAW colaborou com o governo e com a Chrysler na imposição de massivos cortes salariais contra a dura resistência dos operários. Como recompensa, o presidente do UAW, Douglas Fraser, recebeu um assento no quadro de diretores da Chrysler.

O salvamento da Chrysler criou as condições para um violento controle dos sindicatos e cortes de salários nas décadas de 1980 e 1990, iniciando com a repressão de Reagan à greve dos controladores de vôo da PATCO em 1981. Ao invés de defender os direitos conquistados por meio de décadas de luta da classe trabalhadora, o UAW e o AFL-CIO serviram para acabar com a resistência dos operários e impor as exigências dos patrões. A burocracia sindical afirmou que a luta de classes havia sido transformada numa nova luta em defesa das empresas norte-americanas contra os seus concorrentes internacionais. O UAW afirmava que era necessário estabelecer uma nova parceria entre os trabalhadores e a administração a fim de “salvar os empregos norte-americanos”. Os chefes das empresas, como o presidente da Chrysler, Lee Iacocca, foram apresentados pelo sindicato como salvadores dos trabalhadores. Além disso, o UAW organizou uma campanha chauvinista contra as importações japonesas.

O chefe de negociações do UAW com a Chrysler, Marc Stepp, resumiu toda a posição dos burocratas do sindicato da seguinte maneira: “nós temos empresas livres nesse país. Elas têm o direito de obter lucros”. Baseado nisso o UAW apoiou o fechamento de dezenas de fábricas e a eliminação de 50.000 empregos, além do corte de U$ 500 milhões em salários e outras concessões.

A traição do UAW se fundamentou na perspectiva de orientação nacionalista em defesa o capitalismo norte-americano. A globalização da indústria minou a capacidade dos sindicatos nacionais de conquistar concessões da administração por meio da paralisação ou da ameaça de paralisação dos trabalhadores. Quando os veículos passaram a ser produzidos de maneira crescente em escala mundial, as companhias automobilísticas puderam transferir as fábricas de um país ou de uma região para outra. O papel dos sindicatos foi invertido: ao invés de exigir concessões dos patrões, passaram a exigir concessões de seus próprios associados, na tentativa de convencer os fabricantes norte-americanos a manter a produção em território nacional, fortalecendo assim o papel das direções sindicais.

As políticas nacionalistas e pró-capitalistas do UAW representaram um desastre absoluto para os trabalhadores. No final deste ano, o número de associados do UAW na Chrysler, que era de 110.000 em 1979, será de 46.000. No total, o número de associados do UAW nas Três Grades nos EUA cairá 76% em relação a 1979 — de 750.000 para 177.000.

Cidades inteiras — como Detroit e Flint, em Michigan, Estado que já teve a maior renda per capita dos EUA — foram reduzidas a cidades industriais devastadas pelo desemprego crônico, cujas escolas não têm recursos e o número de despejo de casas é recorde.

O salvamento da Chrysler fortaleceu os diretores executivos, que, juntamente com os predadores das companhias e especuladores de Wall Street, começaram a reorganizar a indústria de modo a produzir enormes lucros para si próprios. Nos 25 anos seguintes, ocorreu uma enorme transferência de riqueza dos trabalhadores à camada mais rica, que representa apenas 1 a 2% da população. Na década de 1960, a renda dos executivos das indústrias era equivalente a 25 a 30 vezes o salário médio dos trabalhadores da produção. Em 2006, os diretores executivos estão recebendo 400 vezes o que se paga aos operários. A parcela de 1% das pessoas mais ricas da população — 300.000 pessoas, cuja renda média é de US$ 1 milhão por ano — tem se apropriado, desde 1928, da maior parte da renda nacional, equivalente à parte destinada a 150 milhões das pessoas mais pobres dos EUA.

Assim como o caso dos 19 barões ladrões, estas impressionantes fortunas não estão relacionadas à expansão da indústria. Pelo contrário, especuladores financeiros e altos executivos das corporações conseguiram enormes somas de dinheiro com a destruição das forças produtivas. Resumindo o desprezo da elite pela produção e pela classe trabalhadora, Ray Diallo, o fundador do fundo de investimentos Bridgewater Associates, cuja renda no ano passado foi de US$ 350 milhões, disse: “o dinheiro obtido por meio das coisas fabricadas é ínfimo perto da soma do dinheiro obtido com a especulação”.

Transformar a indústria automobilística numa empresa pública

As indústrias de massa não podem continuar sendo bens pessoais da elite rica dos EUA, que se livra delas quando quiser. O primeiro passo para defender os interesses dos trabalhadores é estabelecer o controle democrático sobre todas as decisões que os afetam: questões como a segurança, os salários, a contratação e as horas de trabalho. Essas decisões não devem ser tomadas por uma minoria rica, mas por comitês de trabalhadores baseados no chão de fábrica, por técnicos e especialistas comprometidos com os interesses dos trabalhadores. Para estabelecer uma democracia operária é preciso abrir os livros de todas as empresas para que suas contas sejam inspecionadas pelos trabalhadores. Além disso, os trabalhadores devem eleger seus representantes entre seus próprios membros por meio de uma votação democrática.

Se a indústria deve funcionar para o bem da sociedade, ela deve ser transformada numa empresa pública e integrada a uma economia planejada socialista. A indústria automobilística mundial envolve a atividade de milhões de trabalhadores de fábricas, engenheiros, projetistas, cientistas, contadores e outros trabalhadores, consumindo grandes quantidades do aço, da borracha, vidro e óleo do planeta. Tais recursos humanos e naturais podem ser organizados de forma racional e ambientalmente sustentável somente se os produtores mundiais cooperarem com base num plano científico para produzir de forma segura e com alta qualidade, utilizando os meios de transporte já disponíveis.

As enormes somas de capital que se deslocam pelo mercado financeiro mundial todos os dias são produtos de trabalho humano. A decisão vital de onde investir os recursos financeiros da sociedade deve ser feita democraticamente pelo povo, não por especuladores e outros parasitas financeiros em salas fechadas. Os grandes bancos e casas de investimento devem ser transformados em propriedade pública. Ao mesmo tempo, as isenções fiscais para os ricos implementadas pela administração de Bush devem ser rejeitadas; os impostos àqueles que recebem mais de US$ 300.000 devem ser drasticamente aumentados e seus recursos transferidos para fundos de programas sociais; os impostos aos trabalhadores devem ser reduzidos.

Os trabalhadores devem rejeitar o chauvinismo americano da burocracia sindical e do Partido Democrata e se unir aos seus irmãos e irmãs de classe em todo o mundo contra as gigantes mundiais dos automóveis. Devem ser criados comitês operários independentes do UAW e do CAW para unir trabalhadores da produção e da administração nos EUA e no Canadá, a fim de lutar contra o desmantelamento da Chrysler e de organizar os trabalhadores da indústria para defender os empregos e as condições de vida. Os trabalhadores da Chrysler devem organizar greves, ocupações de fábrica e manifestações de massa para ligar a sua luta a todos os setores da classe trabalhadora.

As políticas esboçadas aqui significam a condenação do Partido Democrata, que, assim como o Partido Republicano, é financiado e controlado pela aristocracia financeira. Não há conciliação possível entre a classe trabalhadora e o sistema de lucros. Por isso, é necessário que os trabalhadores rompam com os partidos do grande capital e construam um partido socialista de massas. Somente dessa forma será possível que toda a luta — contra os cortes de emprego, o militarismo, a guerra e os ataques aos direitos democráticos — se transforme numa única luta política que busque estabelecer um governo dos trabalhadores e criar uma legítima democracia baseada na igualdade social.

Nós conclamamos os trabalhadores da Chrysler e seus apoiadores que estão buscando um caminho para lutar contra os ataques aos empregos, salários e benefícios de pensão e assistência médica, a entrarem em contato com o World Socialist Web Site e o Socialist Equality Party a fim de discutir esta perspectiva.